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terça-feira, 4 de junho de 2013

Artigo: Pesca industrial provoca destruição na África

Principal importador de peixe do planeta, a União Europeia põe em prática uma política comum de pesca destinada a satisfazer as necessidades de seus consumidores. Garantindo ter como objetivo a “preservação dos recursos naturais”, o novo programa encoraja práticas industriais destrutivas.

Seria errado reduzir o esgotamento dos recursos marinhos a uma “crença” dos ambientalistas. O súbito desaparecimento do bacalhau dos grandes cardumes da Terra Nova, no final do século XX − o que ninguém havia previsto −, teve o efeito de um eletrochoque planetário. Lançada pelos bascos no século XV, a pesca e depois a sobrepesca desse grande peixe de água fria levaram ao impensável. Ao Canadá, apesar da moratória de 1992, o bacalhau nunca mais voltou. E o que ocorreu no Atlântico Norte está acontecendo em outros mares. Os maiores navios do mundo seguem agora em direção ao sul, até os limites da Antártida, para competir pelos estoques remanescentes. Em duas décadas, a biomassa de carapau caiu de 30 milhões de toneladas para menos de 3 milhões no Pacífico Sul. No mesmo período, a população de garoupa diminuiu mais de 80% na África ocidental.

“Vamos ter um mar sem peixes?”, pergunta Philippe Cury, (1) pesquisador do Instituto de Pesquisa Francês para a Exploração do Mar (Ifremer, na sigla em francês). Segundo ele, por causa do progresso excessivo da tecnologia e dos subsídios, a pesca mundial captura duas vezes e meia o que é aceitável. A preservação de espécies marinhas selvagens, além de uma questão de ecologia e biodiversidade, é principalmente uma luta pela sobrevivência humana. O peixe constitui um alimento altamente nutritivo, rico em ácidos graxos essenciais e, assim, contribui com cerca de 50% do consumo de proteína animal em muitos países do Hemisfério Sul: Bangladesh, Gâmbia, Senegal, Somália, Serra Leoa... Na África, durante os episódios de seca, os produtos provenientes do mar têm sido uma fonte alternativa de alimento, como na Somália, em 1974 e em 1975, quando a economia pastoril foi devastada. Mas, quando os grandes atores do setor – Europa, Rússia, Coreia, Japão e a partir de agora a China – se deslocam em águas tropicais ao largo das costas africanas, eles competem com a pesca artesanal e colocam diretamente em perigo a autossuficiência alimentar dos países do terceiro mundo.

Em dezembro de 2006, uma equipe liderada por Boris Worm, da Universidade Dalhousie (Canadá), calculou que, em meados deste século, as espécies mais pescadas hoje poderão desaparecer em virtude da sobrepesca, da destruição de biótipos e da poluição. Worm faz parte de uma nova geração de pesquisadores, concentrados principalmente na América do Norte, que colocam a sobrepesca como uma questão planetária, tal como as alterações climáticas e o esgotamento dos combustíveis fósseis. Contrariamente à crença popular, não basta parar de pescar para os peixes regressarem, e a resistência das populações não é apenas uma questão de número de ovos depositados no oceano. Agraciado com as mais altas honrarias em ecologia (2) e diretor do Centro de Pescas da Universidade da Colúmbia Britânica, o biólogo marinho francês Daniel Pauly descobriu que a pesca excessiva, ao prejudicar o conjunto da rede alimentar, isto é, todas as cadeias alimentares que existem entre os organismos, está destruindo os ecossistemas marinhos, por vezes de forma irreversível. “O mar é como um castelo de cartas; sem peixe, ele pode se transformar em uma vasta extensão de água barrenta, saturada de algas tóxicas e águas-vivas, como já se pode constatar em algumas áreas”, comenta Cury.

Um modelo da agricultura produtivista

Se, durante as últimas duas décadas, a China finalmente colocou a Ásia numa posição de peso pesado da pesca mundial, a União Europeia continua ocupando um bom lugar no banco dos réus. “O desastre está chegando”, martela Maria Damanaki, comissária europeia responsável pela pesca. Em julho de 2011, ela apresentou em Bruxelas a reforma da política comum de pesca (PCP). Desde sua criação em 1970, a PCP é construída sobre um modelo inaplicável à pesca, o da agricultura intensiva. As famosas taxas admissíveis de captura (TACs) concedidas pela Comissão Europeia são, em média, 48% mais elevadas do que as recomendadas pelos cientistas.

Para resolver o excesso de capacidade da pesca europeia, a Comissão Europeia propõe como principal medida a aplicação de “concessões de pesca transferíveis” (CPTs), cotas que podem ser revendidas no mercado por pescadores. Se elas têm a vantagem de não custar nada para Bruxelas, sua generalização levanta sérias preocupações: privatização do conteúdo dos oceanos, cotas à mercê dos mercados financeiros, fim programado da pesca artesanal etc. Na Dinamarca, desde 2003, após a introdução de um sistema de ações das capturas, as concessões dos pescadores menores foram rapidamente adquiridas por um punhado de grandes empresas, apelidadas de “magnatas das cotas” pela imprensa dinamarquesa.

A comissária Maria Damanaki garante, diante de seus detratores, que um conjunto de salvaguardas vai limitar a concentração dos direitos de pesca e proteger a atividade em pequena escala. Respeitada por seu passado militante durante o levante contra a ditadura grega em 1973, Maria, porém, está isolada em uma comissão ultraliberal sob a influência das grandes associações patronais (Comissão Geral de Cooperação Agrícola da União Europeia, Europesca etc.). São elas que, nos bastidores, determinam os rumos para as propostas da comissão.

Às CPTs, soma-se uma segunda medida emblemática que também tem o mérito de não custar nada: a Comissão Europeia pretende proibir as devoluções (de pescados sem valor de mercado, que costumam chegar a dois terços do total recolhido pelas redes) ao mar, mas prevê para isso que os navios desembarquem todas as capturas no cais, a fim de que os resíduos sejam transformados em farinha de peixe para a aquicultura. Cientistas como Jean-Pascal Bergé, pesquisador do Ifremer, questionam o impacto que a obrigação de desembarcar todas as capturas terá nas condições de trabalho da tripulação. François Chartier, do Greenpeace, acredita por seu lado que se trata de uma “falsa solução, que não faz sentido algum para a preservação do recurso”. No final de julho de 2012, no entanto, o Conselho de Ministros da União Europeia preconizou uma aplicação gradual da medida, sem fornecer outras soluções para o problema dos resíduos.

É de perguntar também como a Comissão Europeia vai verificar a aplicação do regulamento, sabendo-se que na prática os controles continuam a ser uma caça muito bem guardada dos governos, e que Paris e especialmente Madri toleram as fraudes com uma complacência desconcertante. No final de 2011, a França foi condenada pela justiça comunitária a pagar uma multa de 57,7 milhões de euros pelo não cumprimento de suas obrigações. Na Espanha, as desventuras de uma equipe de inspetores enviados pela Comissão em dois portos da Galícia em 2009 dão uma boa ideia da dificuldade. Depois de encontrar os quatro pneus do carro furados no estacionamento do hotel, eles conseguiram inspecionar uma dúzia de barcos e contabilizar em um dia 200 toneladas de pescado, enquanto durante todo o mês anterior a Espanha só havia declarado 622 nos dois portos em questão.

Piratas e piratas

Os peixes e os frutos do mar tornaram-se uma questão de comércio internacional, com 37% da tonelagem destinada ao mercado mundial contra 24% em 1975. Pauly descreve assim o paradoxo social e geopolítico dessa globalização: “São aqueles que não têm peixe, os habitantes dos países ricos, que consomem 80% das capturas”. Em 1979, a União Europeia deslocou para o Sul seu excesso crônico de capacidade, tirando partido da fraqueza das estruturas estatais para abrir mercados muito lucrativos, que os acordos de parceria de pesca (APPs) bilaterais favoreceram amplamente a partir de 1979. Os APPs, que representam 8% do volume de peixe capturado pela frota europeia (muito mais em valor de mercado), envolvem uma dezena de países da África, Caribe e Pacífico. Ratificado no final de julho de 2012, o novo acordo entre a Mauritânia e a União Europeia concentra todos os excessos da PCP. Tendo como fundo a competição entre a União Europeia e a China, o ex-diretor de pesca da Mauritânia, Cheikh Ould Ahmed, soube aumentar as apostas. A partir de agora, Bruxelas paga anualmente a Nouakchott uma compensação financeira de 113 milhões de euros, o maior contrato de pesca do mundo. Em troca, um número ilimitado de navios europeus obtém o direito de acesso às águas territoriais, sem restrições reais de captura e, sobretudo, em concorrência direta com a pesca artesanal local. Como a maioria dos signatários dos APPs, a Mauritânia não tem recursos técnicos e logísticos para a realização de controles sobre as atividades de pesca europeia. Embora esta seja a primeira e a mais interessante das rendas, metade da população mauritana vive abaixo da linha de pobreza, e, em dez anos, o consumo de produtos do mar passou de 11 kg/ano/habitante para 9,5 kg/ano/habitante.

O acordo bilateral levanta também questões quanto à legitimidade, em razão de uma óbvia falta de garantias democráticas sobre o uso das compensações financeiras. No norte, a baía de Nouadhibou é tristemente célebre por seus duzentos destroços de navios estrangeiros abandonados, enquanto se distinguem facilmente as grandes traineiras espanholas no horizonte: “O dinheiro de Bruxelas deveria nos ajudar a desenvolver nossa pesca, mas, na wilaya [região administrativa], nunca se viu nada da Europa a não ser seus imensos navios”, afirma Salim Ouerdani, um velho pescador. De fato, nesse país onde a corrupção está profundamente enraizada, os próximos do regime de Mohamed Abdel Aziz controlam as compensações financeiras, as licenças de pesca e os direitos alfandegários.

Reconvertidos à pirataria

“Bruxelas desliza suavemente para uma gestão liberal em que as patronais europeias participarão mais da contrapartida financeira. A União Europeia corre o risco de perder qualquer direito de intervenção”, analisa Béatrice Gorez, coordenadora da Coalizão para Acordos de Pesca Justos (Cape, na sigla em francês). Esse é o grande paradoxo desses acordos: no país onde eles estão ausentes, os resultados são ainda piores. Alguns − como Senegal, Ilhas Maurício e Angola − declinaram, a partir de 2006, da renovação dos acordos de pesca com a União Europeia, mas se veem confrontados com o que se denomina no meio de “senegalização” dos navios europeus. O princípio é conhecido: os navios exibem a bandeira do Senegal, mas seu capital e gestão são essencialmente estrangeiros. “Os pescadores locais abandonaram a pesca de subsistência para se concentrar nas espécies destinadas ao comércio internacional, provocando uma crise de abastecimento no mercado local”, analisa Stéphan Beaucher, da coalizão de associações Ocean 2012. Depois de vinte anos durante os quais houve a combinação de acordo de pesca e “senegalização” das frotas, uma constatação se impõe: os estoques das quatro espécies principais (linguado, pargo, garoupa branca e perca) caíram 75%.

Finalmente, quando o Estado entrou em colapso, como na Somália, os europeus passaram a pescar na pior das hipóteses sem uma licença e, na melhor, graças a autorizações falsas emitidas por empresas mafiosas criadas no Catar por chefes de guerra − um sistema do qual se beneficiam a gigante espanhola Pesca Nova e a Companhia Bretã de Cargas Frigoríficas (Cobrecaf), que totaliza 70 mil toneladas de atum por ano, no Oceano Índico.(3) Em Kismayoo, Berbera, Mogadíscio, a palavra malai (“peixe”, no idioma somali) é ouvida diariamente nas rádios locais que denunciam a presença de embarcações estrangeiras. “A escala dos volumes pescados afeta as capacidades de subsistência somalis, porque os navios ocidentais recolhem em uma noite o que os moradores locais pegam em um ano”, analisa Roger Middleton, do Instituto Chatham House. Na Somália, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) estima que oitocentos navios estrangeiros pesquem de US$ 300 milhões a US$ 450 milhões por ano, principalmente atum, camarão e lagosta. Já o governo de transição somali tem um orçamento global anual de US$ 100 milhões e não possui mais marinha militar para fazer valer seus direitos ao longo de 3,3 mil quilômetros de litoral. Segundo Abdul Jama, um pescador encontrado no velho porto de Mogadíscio, a fim de proteger suas costas e sobreviver, os somalis de Puntland abandonaram a pesca e se voltaram para a pirataria. Sabe-se que o Alakrana e o Artza, dois barcos frigoríficos gigantes para a pesca do atum registrados no País Basco, percorriam a zona econômica exclusiva da Somália quando foram vítimas de ataques piratas, respectivamente em 2009 e 2010. À frente do sindicato dos pescadores de Berbera, na Somalilândia, Hukun Hussein Yussuf ameniza essas informações: “Na verdade, eles fazem os navios estrangeiros fugir, mas alguns não hesitam em extorquir dinheiro de nós”. Ao longo dos anos, milicianos, especialistas em navegação e empresários vêm se juntando às fileiras dos “ex-pescadores”, constituindo cinco organizações para um total de mil homens. Em resposta, a União Europeia começou, em dezembro de 2008, a “Operação Atalanta”, a um custo de cerca de 150 milhões de euros.(4) Cruzadores, aviões de patrulha: as marinhas espanhola e francesa investiram plenamente nessas operações. Infelizmente, a Atalanta não tem por missão combater a pesca ilegal europeia: “Não é meu papel nem meu mandato”, afirmava, em 2009, o almirante britânico Peter Hudson, encarregado das operações. (5)

Junto com a redefinição de alguns APPs, a União Europeia pressiona pela colocação em prática de acordos de parceria econômica (APEs) muito mais amplos, com o objetivo de liberalizar o comércio por meio da supressão dos direitos alfandegários. Estes incluem um item de pesca, considerado por muitos observadores como “pior” do que os APPs. A manutenção de um acesso ininterrupto ao mercado europeu para os produtos do mar tem sido uma das principais razões que estimularam a maioria dos países africanos a rejeitar os APEs provisórios, no final de 2007. Desde então, Bruxelas não abandonou o caso. Associações, parlamentares como Christiane Taubira (ministra efetiva da Justiça quando era parlamentar) (6) ou ainda o relator especial das Nações Unidas para o direito à alimentação, Olivier de Schutter, afirmam que a União Europeia exerce pressão em países do terceiro mundo, ameaçando “a ajuda ao desenvolvimento”. (7) A Europa também começou a dividir a oposição organizando polos regionais de negociação e privilegiando certos Estados-chave, como a Costa do Marfim. Bruxelas se esquece, no entanto, de considerar o peixe pelo que ele é – um animal selvagem, e não um “produto” biológico.

Por: Jean-Sébastien Mora
Fonte: Diplomatique

terça-feira, 2 de abril de 2013

Noruega - Indústria de processamento do bacalhau rejeita uso de aditivos


"Eu concordo com a proibição do uso de fosfatos. Se nós não usamos nos nossos filetes, não faz sentido usarmos aditivos na produção", afirmou Paul Hauan, diretor na unidade da Norway Seafoods em naquela localidade.

As ilhas Lofoten são uma das regiões com maior tradição de pesca do bacalhau, do qual Portugal é o segundo maior importador, atrás do Brasil.

Nesta unidade, o peixe é recebido diariamente fresco das traineiras de pequena dimensão, cujos pescadores não estão a par da polémica, e processado para vários tipos de produtos.

Atualmente interditado, o uso de aditivos no processo de salga úmida do pescado está em discussão na Comissão Europeia devido a uma proposta apresentada em conjunto pela Dinamarca, Islândia e uma associação de armadores da Noruega.

O objetivo é,  dizem, impedir que o peixe amarele e que mantenha uma cor branca, mas os industriais portugueses do setor afirmam que os polifosfatos resultam na retenção de água e perda de qualidade do bacalhau salgado seco.

Um estudo científico de 2010 pelo instituto islandês Matis concluiu que os fosfatos podem ser às vezes uma ajuda ao processamento e não são detetados no produto final de consumo.

Porém, admite que também podem ser usados como aditivos alimentares, contrariando diretivas existentes, pelo que sugere a limitação de quantidades e a discussão entre produtores, compradores e autoridades reguladoras da alimentação.

Oslo tem vincado a disponibilidade para conceder uma exceção para proteger o processo de secagem tradicional usado em Portugal, mas o impasse forçou o adiamento de uma decisão em Bruxelas.

Terje Engø, jornalista da revista especializada Norther Seafood, recorda-se do debate na Noruega há alguns anos atrás e dos rumores de uso ilegal de aditivos no bacalhau.

As multas elevadas definidas para os infratores terão sido suficientes para desencorajar a prática, mas admite que poderá haver interessados no uso de polifosfatos na indústria de processamento, sobretudo porque é feito por outros países, nomeadamente asiáticos.

"Suponho que a discussão regressará", previu.

Fonte: Diário Digital com Lusa

sexta-feira, 29 de março de 2013

Bacalhau encurralado



Especialistas em pesca de oceano são unânimes em afirmar: o bacalhau está acabando. Em pouco menos de 30 anos, a produtividade caiu em 70% apesar da tecnologia e dos subsídios para a pesca comercial. Essa é a segunda vez que isso acontece. Na primeira, ele só não se extinguiu porque não havia a pesca de arrasto industrial.

O consumo mundial de bacalhau passou de 3,1 milhões de toneladas em 1970 para 950 mil toneladas em 2000 e 890 mil em 2002. Não foi por falta de demanda, pelo contrário: a caçada ao bacalhau fez com que ele desaparecesse de seus habitats tradicionais. A pesca de arrasto liquidou os recursos dos oceanos. Por aqui ainda vemos o bicho nas prateleiras porque o Brasil é o maior importador de bacalhau salgado do mundo. Em 2004, consumimos 42% a mais que em 2003, passando de 17.656 toneladas para 25.227 toneladas.

A rota de extinção do bacalhau começou há muitos séculos. Existem registros de fábricas para processamento da espécie cod (Gadus morhua) na Islândia e na Noruega no século IX. Eram consumidos pelos vikings. Mas foram os bascos – que habitavam as duas vertentes dos Pirineus Ocidentais, do lado da Espanha e da França – que aprenderam a conservar o peixe usando sal e começaram a fazer comércio com ele. No ano 1000, os bascos vendiam bacalhau curado, salgado ou seco, método que permitiu a estocagem. Foi o bastante para o peixe mudar os hábitos alimentares da época, quando o mundo se virava com uma oferta limitadíssima de comida, que estragava rapidamente.

Em Portugal, o marco do pescado começou no século XVI, no reinado de D. João III, quando a frota bacalhoeira nacional descarregou mais de três mil toneladas do peixe de uma vez. O “excesso” na busca pelo bacalhau começou depois que a Europa dos séculos XIV e XV enfrentou a Grande Fome (1315-1317), com a mudança no clima que destruiu as colheitas, e a Peste Negra (1347-1350), pandemia de peste bubônica que assolou a Europa em meados do século XIV, dizimando um terço da população. O bacalhau entrou em cena como fonte de geração de emprego e renda, ajudando os portugueses a superar a miséria. O consumo interno do bacalhau foi reforçado por conta da rígida norma cristã de abstinência alimentar de 150 dias por ano, quando era permitido apenas o consumo de carne de peixe. Quem não vivia perto da costa tinha problemas para se abastecer de pescados, altamente perecíveis. O bacalhau salgado, farto na época, caiu no gosto popular porque conservava, depois da salga, os nutrientes, a textura e o sabor. De olho na necessidade do interior, Dom Manuel chegou a reivindicar para si, em 1506, o dízimo do bacalhau na Terra Nova, atual Canadá.

A importância socioeconômica do bacalhau foi tão grande que durante todo o século XVI os portugueses mandaram sistematicamente à Terra Nova uma frota, que chegou a ter 150 navios em 1550, só para pescá-lo. Rapidamente a atividade econômica ganhou força e se tornou uma das principais motivações das viagens portuguesas do princípio do século XVII. O bacalhau ajudou no desenvolvimento construção naval, da navegação astronômica e da cartografia. Ainda no período de dominação dos Filipes (1580-1640), os recursos já davam os primeiros sinais de escassez. Antes mesmo da pesca de arrasto, o bacalhau quase desapareceu nos mares dominados pelos portugueses, e a recuperação do peixe só ocorreu no século XIX. Mais à frente, depois da Segunda Guerra Mundial, o preço do bacalhau aumentou, restringindo o consumo popular nas principais festas cristãs: a Páscoa e o Natal.

Livre de pecado, a busca contemporânea e frenética tornou novamente o bacalhau escasso, desta vez em todos os mares. Nas últimas duas décadas, com a pesca de arrasto em escala industrial, a captura tornou-se mais eficiente e acelerou o processo de extinção não só deste peixe, mas também da cadeia alimentar que o sustenta. O simples “encontro” do pescado está cada vez mais difícil porque as redes capturam os animais cedo demais e em grandes quantidades, comprometendo decisivamente sua reprodução. O bacalhau leva até seis anos para atingir a maturidade sexual. De cada 20 filhotes, apenas um consegue sobreviver tempo suficiente para se reproduzir. Além disso, a pesca secular capturou intensamente os animais maiores, fazendo com que a população remanescente das espécies descendesse de peixes menores, de valor comercial reduzido, forçando uma busca ainda maior pelo pescado, num ciclo vicioso.

De acordo com especialistas, se a pesca de arrasto fosse proibida hoje em todas as áreas para evitar um colapso ambiental, os cardumes do bacalhau não se recuperariam em menos de oito anos. Segundo a FAO (organização da ONU para a agricultura e a alimentação) 75% dos recursos pesqueiros estão no limite de exploração ou em vias de esgotamento. A organização alertou, no início de março, que este excesso de pesca pode colocar em perigo o futuro de sete das dez principais espécies marinhas.

Em 1992, o Canadá, que produzia um quinto do bacalhau do mundo, foi obrigado a acabar com a pesca em seu litoral, o que levou 40 mil pessoas ao desemprego. Em 1999, a União Européia instaurou um plano de longo prazo para a recuperação da população do bacalhau na região do Báltico. Em outra reunião, realizada em 2001 em Bergen, na Noruega, um grupo de trabalho especializado no assunto repetiu pelo terceiro ano consecutivo as recomendações para a restrição e a proibição, em algumas regiões, da pesca do bacalhau. E em 2003, foi proibida a pesca de bacalhau com redes de arrasto, redes de cerco dinamarquesas e similares, no mar Báltico, no período de abril a maio.

A região que vai da costa da Noruega ao litoral da Escócia é a maior produtora do legítimo bacalhau - o Gadus morhua, exportado para todos os cantos do mundo, inclusive o Brasil. Em outubro do ano passado, outro comunicado oficial reforçou o temor da extinção das espécies de bacalhau nos mares gelados de todo o mundo. O International Council for the Exploration of the Sea revelou que não havia sinais de recuperação dos estoques de bacalhau nos países exportadores, ou seja, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estónia, Finlândia, França, Alemanha, Islândia, Irlanda, Letônia, Holanda, Noruega, Polônia, Portugal, Rússia, Espanha, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos. Os cientistas estimam que nessas regiões existam apenas 46 mil toneladas do peixe, quando o normal e recomendável para o equilíbrio do ecossistema seria um mínimo 150 mil toneladas.

A esperança dos europeus é a criação em cativeiro. Mas a produção de bacalhau em gaiolas flutuantes em baías e braços de mar enfrenta um obstáculo: a dificuldade em alimentar os peixes que não aceitam ração - como o salmão - e só comem organismos vivos. Apenas um laboratório domina a técnica da alimentação dos filhotes em gaiolas, o que pode tornar o produto ainda mais caro do que já é hoje. Além disso, animais de cativeiro produzem carne de sabor e qualidade inferiores aos do animal selvagem. Se há alguma chance de o bacalhau sair dessa, não nos restam mais de 15 anos para tentar.

Fonte: O ECO

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Pesca tradicional de bacalhau na Noruega (1892)



Ilustração publicada no periódico “Trompete de Nordland” (Noruega) em 1892, por Thorolf Holmboe. Nela pode-se notar os típicos barcos de pesca da altura, de vela quadrada, que pescavam o bacalhau bem junto da costa e abaixo a forma habitual como era depois processado o peixe, a secar pendurado em varas. Este era o método tradicional na Escandinávia, apenas de secagem, pois sal não faz parte daquelas regiões.

Fonte: Caxina ... de "lugar" a freguesia

sexta-feira, 30 de março de 2012

Livro - Faina Maior




Obra da autoria do Capitão Francisco Marques, antigo homem da pesca ao bacalhau em lugres como o “Creoula” e Drª Ana Maria Lopes, directora do Museu Marítimo de Ílhavo durante os anos 90. É um livro editado em 1996 pela Quetzal.

O livro faz “a reportagem ou o relato – de uma campanha de barra a barra (neste caso, da de Aveiro), de um lugre da pesca do bacalhau à linha, dos anos 30, com toda a azáfama, dureza, angústia, saudade, sacrifício e empenho, nos gelos perpétuos.”

A edição tem 112 páginas e cerca de 142 fotografias da época.

Fonte: Associação dos Portos de Portugal e Blog Marintimidades



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