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terça-feira, 26 de junho de 2012

Programa Toxic Tour mostra agressões ambientais no Rio de Janeiro


Toxic tour mostrou para participantes da Rio+20 contradições do atual modelo de desenvolvimento na Cidade Maravilhosa. Seu Francisco saiu de casa para olhar o movimento. Ficou curioso com tanta gente que desceu de um ônibus, quase todos com câmeras à mão e muitos falando outros idiomas. Perguntou o que estava acontecendo e explicaram a ele que os "turistas" eram pessoas de diversos países e do Brasil, jornalistas, pesquisadores e ativistas que estavam no Rio de Janeiro por ocasião da Rio+20 e foram conhecer de perto os impactos da siderúrgica TKCSA [Thyssenkrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico] no bairro de Santa Cruz, na zona oeste da capital carioca. "É um perigoso isso aqui", comentou Seu Francisco, sobre a presença da empresa no local.

Seu Francisco, que mora no bairro há 60 anos, viu o local mudar muito com a chegada da TKCSA. Assim como ele, milhares de pessoas, estima-se que 20 mil, sintam os impactos da empresa na vida cotidiana, sobretudo nos últimos dois anos quando começaram as atividades da siderúrgica e uma "chuva de prata" começou a cair em cima das roupas no varal, das plantas e passou a fazer parte do ar respirado pelas pessoas.

A visita à Santa Cruz foi um dos destinos do Rio+Tóxico, atividade organizada durante a Cúpula dos Povos na Rio+20, entre os dias 15 e 17 de junho, para denunciar os prejuízos de grandes empreendimentos ao meio ambiente e às populações, sobretudo as mais pobres, marginalizadas e comunidades tradicionais. Outro destino que recebeu visitantes foi a cidade de Magé, onde pescadores tiveram que deixar o trabalho por conta de empreendimentos da Petrobrás, além de contaminação da Baía de Guanabara e, inclusive, sofrem ameaças de morte por protestarem e denunciarem a ação da empresa pública. Também fizeram parte do tour a região de Duque de Caixas, com a visita à refinaria Reduc, à Área de Proteção Ambiental São Bento, ao aterro de Jardim Gramacho - o maior do mundo e recentemente desativado - e o local conhecido com Cidade dos Meninos, onde há contaminação por resíduos de inseticidas abandonados. Os visitantes ainda puderam conhecer a Baía de Sepetiba - que também banha Santa Cruz, e é impactada pela TKCSA e outros empreendimentos anteriores, que deixaram por lá um grave passivo ambiental.

Na saída para o primeiro dos destinos - Santa Cruz - Carlos Tautz, do Instituto Mais Democracia, explicou que a escolha do local de concentração para saída dos ônibus rumo aos locais impactados não foi feita ao acaso. "Escolhemos nos concentrar em frente ao BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] para denunciar que este banco público, estatal, financia todos estes projetos. O banco está completando 60 anos, mas hão faz jus a esta idade. Apesar de ter o dobro do orçamento do Banco Mundial, financia os piores projetos no Brasil e também na América Latina e agora, na Rio +20, se apresenta como um dos grandes financiadores do capitalismo verde", afirmou.

TKCSA

A viagem até Santa Cruz demorou cerca de uma hora. Miguel Trentin, do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs), um dos organizadores do Toxic Tour, explicou que este tempo dobra em dias úteis. A fumaça dos alto-fornos da siderúrgica já pôde ser vista assim que o ônibus chegou ao bairro. A comitiva avançou o mais próximo possível da TKCSA, um dos portões de entrada da empresa, onde um carro da segurança particular estava estacionado. Os visitantes fotografaram e filmaram a siderúrgica e também foram fotografados por um dos seguranças. Em seguida, os moradores organizaram uma recepção em um salão de festas para relatarem os impactos sofridos. Nas paredes, cartazes de protesto contra a presença da TKCSA na região e várias fotos das evidências do impacto - como uma criança com problemas de pele e a concentração do pó prateado nas folhas das plantas.

Jacir do Nascimento, ex-pescador, relatou, muito emocionado, o que vem acontecendo desde que a empresa se instalou em Santa Cruz. "Não podemos mais tirar o nosso sustento da Baía de Sepetiba, temos que procurar um outro modo de viver para levar o sustento para dentro de casa, eu estou trabalhando como servente de obra, e fazendo um biscate ali e aqui. A TKCSA acabou com nossos peixes na Baía de Sepetiba. A mesma coisa que nós aqui na terra estamos sentindo na pele com a poluição, o peixe também está sentindo dentro do mar. Os nossos governantes aceitaram essa empresa aqui, tentaram se instalar em vários outros locais e não conseguiram, e vieram se implantar aqui, em cima da gente, disseram que não havia moradores perto de onde a empresa seria implantada, o que não é verdade", contou.

Contra

Jacir acrescentou que antes da instalação da empresa foi feita uma reunião com os moradores. Na ocasião, eles se posicionaram contra o empreendimento, entretanto, de acordo com ele, foi levado para a Alemanha, sede da siderúrgica, um posicionamento diferente segundo o qual os moradores de Santa Cruz não estavam apresentando resistência à TKCSA. Ainda segundo Jacir, fotos do bairro foram tiradas de forma a mostrar as partes menos habitadas para tentar referendar o argumento de que não haveria impactos significativos aos moradores. "Isso foi fraude deles. Agora estamos passando esse perrengue aqui, minha vista tem ardência o tempo todo, essa coceira na pele. Eu com um pulmão só, pescador, com 58 anos de idade, não estou agüentando isso aqui não. E as crianças, como ficam? Quem já tem bronquite não agüenta", protestou.



Moradores de Santa Cruz fundaram recentemente a Articulação da População Atingida pela Companhia Siderúrgica do Atlântico e, junto a pesquisadores e entidades que os apóiam, têm feito diversas ações de denúncia. Os participantes do tour receberam uma lembrancinha: um pequeno vidro com uma amostra do pó emitido pela siderúrgica. E também foi distribuído o primeiro informativo feito pelos moradores chamado "Alô TKCSA!".

Para Fernando Costa, da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, também presente no Toxic Tour, a instalação da TKCSA em Santa Cruz é um típico caso dos negócios fechados entre as empresas e os governos sem levar em conta os direitos básicos das populações. "Aqui nós vemos um caso típico de injustiça ambiental que acontece em vários locais do mundo, uma comunidade que não foi consultada, que está sofrendo os impactos. Eles estão resistindo, mas a empresa tem muito mais força, está junto com o governo. Existe uma captura corporativa, uma relação promíscua das grandes corporações com os governos e é isso que estamos vendo aqui. As opções do governo não são mais para defender o povo, mas entregá-los para essas iniciativas".


Fonte: Caros Amigos

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Cúpula dos Povos: Plenária sobre energia


Novas alternativas para a geração de energia é assunto recorrente a ser debatido. Aqui na Cúpula não foi diferente: o assunto foi o tema principal na plenária “Energia e indústrias extrativas”, que aconteceu em dois turnos, pela manhã e à tarde. Representantes de organizações e de movimentos sociais da América Latina, América do Norte, Europa e da África expuseram brevemente seus pontos de vista, a fim de debater ideias e propor possíveis soluções.

É impossível falar de novas alternativas sem mencionar as indústrias que se apropriam do processo de extração e transformação da matéria-prima para a geração de energia. Muitas vezes, essas mesmas indústrias, com discursos em prol do desenvolvimento (sustentável), avançam em seus projetos, mas se esquecem de manter as necessidades básicas dos moradores das regiões onde se instalam, ou de cumprir com o papel ambiental que devem seguir.

Problemas estruturais e falsas soluções

Mas qual modelo de desenvolvimento sustentável é esse que não se preocupa com a maneira como a instalação destas empresas é feita? Durante a plenária, discutiu-se muito a questão dessas apropriações que alteram as vidas dos moradores da região, por vezes realocando-os para outros espaços menores e/ou mais distantes da comunidade de origem e do comércio da região. Sem falar, é claro, nos danos sérios ao meio ambiente, como a contaminação dos reservatórios de água, da destruição de biomas e da poluição.

Fabiano Maciça é de Moçambique e discursou na plenária. Ele e seus vizinhos vivem na pele os problemas estruturais causados por grandes empresas que se instalam em áreas onde já havia comunidades estabelecidas, com suas tradições e hábitos.

A Vale, um das maiores mineradoras do mundo, explora carvão e minério em Moçambique. De acordo com o relato de Fabiano, a empresa preocupa-se mais com as atividades exploratórias do que com a alteração na vida daqueles que moram próximo às áreas onde ela exerce suas atividades.

Fabiano conta que a Vale transporta carvão e minério numa distância de 600 km da sua base até o porto. ”Nós, que temos a tradição de comer do lado de fora das nossas casas, já não podemos mais. Além de o comboio passar dentro das nossas propriedades, ainda existe o problema da poluição”, desabafa.

Para o, pior que essa atitude invasiva por parte da empresa é a expropriação. Uma vez expropriados, as vidas dos moradores de uma região mudam completamente. “Nós somos transferidos para espaços muito menores do que a casa que construímos. Ninguém está contra o desenvolvimento. Desenvolvimento, sim. Mas desenvolvimento sustentável”, esclarece.

Mas o que conduz toda essa lógica de degradação? O modelo economico neoloberal e a voracidade do capitalismo, com sua lógica de produção e consumo — que, no fim das contas, o próprio sistema acaba justificando. Gilberto Cervinsky, do Movimento dos Militantes Atingidos por Barragens no Brasil, diz que o capital acelera e pressiona a lógica econômica por novas demandas tecnológicas. Essa lógica, por sua vez, ao invés de libertar, aumenta a exploração sobre os trabalhadores. O sistema econômico faz com que se produza cada vez mais para tornar obsoletas as mercadorias. Isso cria um círculo vicioso e “a energia é um dos polos centrais para essa apropriação”, explica.

Ainda de acordo com Gilberto, o desenvolvimento sustentável defendido na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) é sinônimo de “negócios com alta lucratividade e vida longa”. Tudo isso acabaria se traduzindo na ‘economia verde’, uma justificativa para a intensificação da apropriação da propriedade privada sobre as terras, as reservas minerais, as águas.

Afinal de contas, a “energia é para quê e para quem?”, provoca Gilberto. É preciso que haja a soberania energética para os povos, mas quem acaba por controlá-los são as corporações.

A real solução

Após a exposição dos problemas estruturais e de suas causas, a parte da tarde da Plenária foi dedicada às soluções que os povos propõe aos governos: energias renováveis. Mas, segundo os participantes do debate, é preciso questionar se essa energia sustentável é para todos, já que os bancos, as empresas energéticas, petrolíferas e outros representantes do capital apresentam propostas na Rio+20 oficial justamente sobre essa questão.

As Plenárias de Convergência seguem até amanhã (18). Ao todo são cinco, dedicadas a temas-chaves para a elaboração do documento final da Cúpula dos Povos, que será produzido durante as Assembleias dos Povos: Soberania Alimentar; Energia e indústrias extrativas; Defesa dos bens comuns contra a mercantilização; Direitos, por justiça social e ambiental; Trabalho: por outra economia e novos paradigmas.

Fonte: Cúpula dos Povos

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Artigo: O aumento do preço dos alimentos


O índice de preço dos alimentos da FAO (Food and Agriculture Organization) tem apresentado uma tendência de aumento desde o quinquênio 1999-2003, quando apresentou os níveis mais baixos de todo o século anterior.

Realmente é surpreendente que o índice de preço dos alimentos, em nível mundial, tenha caído mesmo com o aumento da população mundial (que cresceu 4 vezes no século XX) e o crescimento da economia mundial (PIB) que cresceu cerca de 18 vezes no século XX. Ou seja, a despeito de um crescimento de 4,5 vezes no poder de consumo per capita da população mundial, o preço dos alimentos apresentou uma tendência de queda. É mesmo surpreendente, pois é sabido que existe muito desperdício e muita especulação na produção e no consumo de alimentos e mesmo assim os preços reais caíram durante décadas.

Desta forma, embora a demanda tenha crescido o índice de preço mundial dos alimentos caiu e se manteve em nível baixo até o ano de 2003. Durante o século XX, o preço dos alimentos aumentou durante as duas Guerras Mundiais e entre o período 1974 e 1981, quando os preços do petróleo atingiram níveis muito altos, devido à instabilidade no Oriente Médio. Com o fim da União Soviética (e da Guerra Fria) os preços do petróleo atingiram os seus níveis mais baixos no final dos anos 1990, o que contribuiu para abaixar também o preço dos alimentos até 2003.

O gráfico abaixo mostra o índice real de crescimento anual do PIB, da população, dos preço dos alimentos e do preço do petróleo, no mundo, entre 1990 e 2011. Entre 1990 e 2003 o preço dos alimentos e do petróleo cresceram menos que o aumento da população e da economia (PIB). Porém, a partir de 2004 o preço do petróleo disparou e, em seguida, o preço dos alimentos também subiu, mas em ritmo um pouco menor do que o preço do petróleo. Em 2008 os preços do petróleo e dos alimentos chegaram a um pico elevado, caíram em 2009 devido à crise financeira internacional, voltaram a crescer em 2010 e atingiram um dos índices mais elevados em maio de 2011.


Entre 1990 e 2011 a população mundial cresceu 32%, o PIB mundial cresceu 102%, o preço dos alimentos cresceu 95% e o preço do petróleo cresceu 366% até maio de 2011. Até o ano de 2006 o preço dos alimentos tinha crescido em ritmo menor do que o da população mundial. Mas o preço dos alimentos já vinha crescendo em ritmo mais acelerado do que o da população, o que fica mais evidente a partir de 2007. Se esta tendência dos preços dos alimentos continuar, haverá grande pressão os padrões nutricionais da população.

Porém, o que os dados do gráfico sugerem é que o preço dos alimentos segue mais o preço do petróleo do que diretamente o crescimento da população e da economia. De fato o preço do petróleo influi no preço dos fertilizantes, dos diversos defensivos químicos e nos custos dos transportes. A energia é fundamental para a produção agropecuária. Portanto, se o preço do petróleo continuar crescendo o preço dos alimentos também deve crescer.

O petróleo, segundo diversos estudos, parece ter atingido o “Peak Oil”, em 2008, e a oferta mundial deverá se estabilizar e ficar atrás da demanda nos próximos anos, enquanto a procura mundial deve continuar aumentando. Um acontecimento novo do século XXI é que as economias emergentes (e mais populosas) estão crescendo em velocidade muito superior às economia avançadas. Este processo tende a aumentar muito a demanda de petróleo e alimentos. Se estas tendências continuarem, o mundo terá um grande desafio nas próximas décadas que é lidar com o aumento do preço das diversas commodities, a despeito dos esforços recentes do G-20 contra a volatilidade dos preços.

Como o petróleo é uma fonte não renovável de energia e a oferta vai ter dificuldade de acompanhar a demanda, somente o desenvolvimento de outras fontes de energia (como a energia solar, eólica, das ondas, etc.) poderá aliviar as tendências de alta do preço dos alimentos. O aumento da produção de biocombustíveis pode, por um lado, aliviar o aumento do preço do petróleo, mas, por outro, tende a competir com a produção de meios de subsistência e pode ser um fator a mais de pressão sobre o preço dos alimentos.

No final do mês de junho de 2011 o preço do petróleo teve uma redução, especialmente depois que os Estados Unidos e a Agência Internacional de Energia (AIE) liberaram parte das reservas estratégicas de petróleo, devido à crise na Líbia. Isto deve dar um alívio temporário nos preços e na pressão inflacionária que tem se espalhado por quase todos os países do mundo. Porém, se a economia internacional mantiver o ritmo acelerado de crescimento econômico, os preços das commodities devem voltar a subir. Também o aquecimento global, a degradação das terras agricultáveis e a acidez das águas dos rios e dos oceanos devem afetar a oferta dos produtos de subsistência. A combinação do aumento dos custos de produção dos alimentos com a perda de fertilidade das terras e das águas pode trazer sérias consequências para as condições de sobrevivência dos habitantes do Planeta.
A FAO calcula que até 2050 a produção de alimentos terá de crescer 70% para alimentar os estimados 9 bilhões de habitantes do planeta. Seria necessário uma reforma do sistema agrícola global para aumentar a oferta de comida. Mas em qualquer cenário, o mundo vai ter que enfrentar o aumento do custo da produção, devido ao aumento do preço da energia e devido à combinação de perda de fertilidade das terras e águas, em um quadro de mudanças climáticas.

Assim, se, no longo prazo, os preços dos alimentos mantiverem a tendência da última década, uma parcela expressiva da população mundial vai ter dificuldades para garantir o direito à segurança alimentar. A combinação de escassez do petróleo com degradação ambiental pode indicar um cenário de continuidade do aumento do preço dos alimentos, prejudicando especialmente as parcelas pobres das populações dos países que não possuem autossuficiência alimentar. Em síntese, a fome no mundo pode aumentar. Este vai ser o grande desafio, para os próximos anos, do brasileiro José Graziano, novo diretor-geral da FAO.

por José Eustáquio Diniz Alves
José Eustáquio Diniz Alves, articulista do EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal.

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