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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Pesca do muçum é alternativa para suprir carência do peixe tradicional


Com a safra totalmente perdida, a prioridade de agricultores na zona rural é salvar os animais que restam

Ibaretama. Sem água, o peixe tradicional morre. A última espécime a sobreviver é o muçum, que serve de alimento para muitos agricultores. Um deles é Francisco Mendes do Nascimento. Diariamente, ele pega o seu anzol improvisado e se dirige para o açude do Cavalcante, próximo ao hospital municipal da cidade.

A pesca incomum vem amenizando as dificuldades Fotos: Waleska Santiago

Diante da presença da reportagem, Chico Nascimento, como é conhecido, tenta negar que esteja fisgando muçum para alimentar a família - dois filhos e a esposa. "Na verdade, estava apenas de passagem, para pegar a filha no colégio e parei aqui no açude para pescar por esporte", conta, por volta das 14 horas.

O agricultor revela que, no ano passado, nesse mesmo período, chegou a pescar cará de três quilos. Apontando para uma distância de aproximadamente cem metros, mostra onde a água estava. "É muito triste ver a situação atual. Esse é um local que é usado como área de lazer, principalmente nos feriados e no Carnaval. Hoje está assim, quase seco. O que resta é alguma água e muita lama. Daí resistir apenas o muçum", diz, já admitindo que "eventualmente" costuma pescá-lo para "quebrar um galho".

Chico frisa, ainda: "apesar do aperto por causa da seca, recebemos o Bolsa Família. O que praticamente desapareceu foi a oportunidade de conseguir uma ocupação para substituir a agricultura, pois perdemos todo o milho e o feijão que foram plantados no início do ano".

Embora não pareça, o Muçum é um peixe. Bem peculiar, mais se assemelha a uma cobra por seu formato - sem nadadeiras, peitorais e ventrais, desprovido de escamas e bem liso, o que motivou o adágio popular: "mais liso que muçum". Além disso, se adapta às águas pouco oxigenadas, daí sua facilidade em viver na lama, no caso do açude Cavalcante, resultante do que um dia foi um manancial hídrico.

José Roberto da Silva, vigia de uma escola pública localizada ao lado do açude particular, garante que Chico costuma pegar muçum ali todos os dias. "Ele não é o único. As pessoas têm um pouco de vergonha, pensam que é humilhante tirar o bicho da lama para levar para casa. Não tem nada a ver. Trata-se de uma comida deliciosa. Quem já provou torrado com cachaça não esquece nunca".

Prioridade

No retorno à propriedade do médio produtor Júlio Alves de Lima, 77 anos, localizada na zona rural de Ibaretama, o otimismo que ainda perdurava em abril foi trocado pelo pragmatismo da sobrevivência. Seu Júlio, na companhia dos três filhos, após três tentativas de emplacar uma boa safra de milho e feijão, desistiu.

"Foi tudo perdido. Só me resta fazer o que for possível para salvar os animais e evitar que eles sofram". Das 70 cabeças de gado que criava na propriedade de 120 hectares, trinta foram negociadas por um preço aquém do que seria conseguido em condições normais.

"Nos desfizemos de quase a metade para poder alimentar o restante. Mesmo assim, estou temeroso, pois não é possível suportar sem chuva por mais um ou dois meses", alerta seu Júlio.

Todos os dias, Nélio, filho mais velho, queima dez baldes de mandacaru para dar aos animais. Depois de triturado, o cactáceo é misturado à palha de arroz que foi adquirida em Morada Nova. "Compramos em outubro último 19 rolos de palha de arroz. Isso representa cerca de 12 mil quilos. Pela nossa estimativa, isso vai garantir comida para os bichos até o fim do ano".

Mesmo destacando que a estiagem é semelhante à registrada em 1958, Júlio Alves ressalta que a diferença fica por conta de medidas mitigadoras adotadas desde então, como os mecanismos sociais criados pelo governo ao longo do tempo, complementados por ações emergenciais. "Antes, tínhamos as frentes de serviços, que pagavam uma miséria aos agricultores. Hoje, os seguros dão um suporte muito bom às famílias. O problema é a falta d´água para os animais. Isso é que é preocupante", afirma.

Durante a nossa segunda visita à propriedade de seu Júlio, ao chegarmos, nos deparamos com uma cena insólita para os dias de hoje no sertão nordestino: ele manuseava um punhado de milho. Sobre o fato, foi logo desfazendo a nossa expectativa de que tivesse salvado alguma coisa da lavoura.

"Não é o que parece. Esse milho foi guardado em um tambor da safra de 2010. Estou fazendo a seleção para o plantio. Desisti de 2012, mas a vida não para e o próximo ano está em cima. É só ter um bom sinal de que vai chover com certa regularidade que corremos para a enxada para começar tudo novamente".

Josenias Cândido de Lima, sobrinho de seu Júlio, reclama da dificuldade e dos encargos para conseguir o milho da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). "Pagamos três fretes, de Mato Grosso para Fortaleza, R$ 2; de Fortaleza para Ibaretama, R$ 3 e da sede do nosso município até a zona rural, mais R$ 2. Assim, a saca do milho que é entregue por R$ 18 chega até nós por R$ 25. É bem verdade que ainda vale à pena, pois a saca custa R$ 50 em locais como Ibicuitinga e Quixadá. Além disso, há muita dificuldade de encontrar o produto".

Lamento

A esposa de seu Júlio, dona Maria Eduarda de Lima, 75 anos, relata que a aparente tranquilidade do marido não condiz com a realidade. "Ele passa noites sem dormir contrariado com a situação dos animais. É muito dolorido vê-los passando fome e sede. Quem não cria, não se desespera tanto. Mas a gente observando de perto sente uma agonia enorme, um grande aperto no coração. Rezo todos os dias pedindo para que esse sofrimento tenha fim e a água da chuva volte a molhar o nosso chão".

Fonte: Diário do Nordeste.

Matéria completa em: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1212345

quinta-feira, 15 de março de 2012

Comissão de Minas e Energia aprova incentivo para criação de peixes exóticos


A Comissão de Minas e Energia aprovou na quarta-feira (14) o Projeto de Lei 5989/09, do deputado Nelson Meurer (PP-PR), que incentiva a criação de espécies exóticas de peixe em tanques-rede, equiparando-as aos peixes nativos. O texto altera a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Aquicultura e da Pesca (Lei 11.959/09).

O relator, deputado Simão Sessim (PP-RJ), apresentou emenda para que os ministérios da Pesca e Aquicultura; e do Meio Ambiente determinem as espécies exóticas às quais a proposta de equiparação se aplicará. O projeto original citava as espécies que teriam sua criação incentivada: tilápia-do-nilo; carpa húngara ou comum; carpa prateada; carpa capim; e carpa cabeça grande.

A equiparação busca afastar obstáculos normativos à produção das espécies exóticas, que enfrenta restrições em virtude dos riscos que podem causar ao meio ambiente.

Represas

A proposta obriga ainda o proprietário ou concessionário de represas a efetuar o repovoamento anual dos reservatórios hídricos com espécies de peixes nativas do local do empreendimento. “Os reservatórios artificiais deverão ter um papel relevante no desenvolvimento da aquicultura. Essa medida pode ser considerada uma compensação pelo alagamento de áreas férteis”, afirmou.

A comissão acatou também emenda de Sessim para que as regras e procedimentos de repovoamento sejam estabelecidos pelos ministérios da Pesca e Aquicultura; e do Meio Ambiente. O projeto original não definia qual órgão seria responsável por regulamentar a questão.

Organismos modificados

O relator retirou da proposta original a proibição da soltura de organismos aquáticos geneticamente modificados no meio natural. Na legislação em vigor, a vedação vale para quaisquer organismos alterados geneticamente.

Tramitação

O projeto, que tramita em caráter conclusivo, ainda será analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania. A proposta já havia sido aprovada, em 2010, pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável; e, no ano passado, pela Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural.

Fonte: Camara dos Deputados

Pesca de tucunaré diminui 90% nos açudes públicos





 
Iguatu Um dos pescados mais apreciados da água doce é o tucunaré. Frito ou cozido, é o preferido entre a maioria dos consumidores. A espécie, entretanto, está escassa na região Centro-Sul. Nos últimos meses, houve queda de cerca de 90% na quantidade de captura nos açudes públicos. No Açude Orós, por exemplo, o segundo maior do Ceará, os pescadores se queixam do "sumiço" do peixe. Essa reclamação ocorre também no Açude Trussu, em Iguatu, no Muquém, em Cariús, e no Ubaldinho, em Cedro.

Na localidade de Barrocas, na bacia do Açude Orós, na zona rural de Iguatu, os pescadores dizem que, desde o ano passado, está cada vez mais difícil pescar tucunaré. "Aqui na nossa comunidade, a queda foi de 90%. Praticamente desapareceu", diz o presidente da Associação de Pescadores, Evanilson Saraiva. Ele informa que o grupo pescava uma média de 300 quilos de tucunaré por semana. Hoje, o número caiu para 30 quilos.

No Açude Trussu, o tucunaré também está difícil de ser capturado. No período da Quaresma de 2011, o piscicultor Ernani Lima lembra que mantinha um estoque diário em torno de 40 quilos da espécie. "Hoje, só tenho uns seis quilos", lamenta. A captura não ocorre mais diariamente. As linhas ficam armadas com isca permanentemente, mas parece que o peixe mudou-se para outras águas", lamenta.

Nas comunidades ribeirinhas do Açude Orós, a reclamação é geral. O tucunaré é uma espécie de alto valor comercial e não faz parte da relação das espécies de piracema, que são proibidas de serem capturadas nessa época do ano devido a uma portaria do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). "Era uma fonte de renda para todos nós", observa o pescador artesanal Paulo da Silva. "Centenas de pescadores eram beneficiados com a captura do tucunaré", fala.

Produção de filé

Evanilson Saraiva conta que a pesca predatória das espécies pequenas é feita por meio de redes de arrasto para a produção de filé. Já a pesca das fêmeas maiores acontece com arpão.

Na localidade de Barrocas, a queda da quantidade de tucunaré capturado vem sendo observada desde 2010. Um dos maiores consumidores da espécie na região, as peixadas de Lima Campos adquirem o peixe do Açude Castanhão e de reservatórios da região Norte do País. "Em Lima Campos e no Orós, o tucunaré acabou. No passado, atendia grande parte da nossa demanda, mas agora praticamente acabou", observa o empresário José Gomes.

O engenheiro de pesca Roberto Bezerra, coordenador do Centro Vocacional Tecnológico (CVT), em Iguatu, acredita que a pesca predatória do tucunaré menor do que 20 centímetros contribuiu para a situação atual. "O uso de rede com malhas reduzidas captura espécies pequenas, impedindo sequer uma reprodução", diz. "Com o tempo, o estoque tende a acabar", completa.

Bezerra defende o controle de pirambeba, outra espécie carnívora que tem em abundância no Açude Orós, mas não tem valor comercial. "O governo poderia incentivar a captura dessa espécie, que pode ser aproveitada como componente de ração ou produção de farinha", defende.

Outra medida seria intensificar o peixamento de tilápias e outras espécies que servem de alimento para tucunaré. "É preciso ampliar e ter mais rigor na fiscalização que é praticamente inexistente, e permite a pesca predatória. Os dados sugerem que o ecossistema do Orós está em desequilíbrio", observa.

Coleta anual

A Unidade Administrativa do Departamento Nacional de Obras contra a Seca (Dnocs), no Açude Orós, faz a coleta anual de quantidade capturada de 11 espécies. A informação é dada pelos pescadores cadastrados. Não há checagem. Os dados revelam uma variação nos últimos dez anos e, curiosamente, mostram um crescimento entre 2002 e 2009.

Em 2002, quando o reservatório estava quase seco, foram capturados apenas 260 quilos de tucunaré. Já em 2005, um ano após a sangria, foram informados 20 mil quilos. Em 2009, 70 mil quilos. Em 2010, 42 mil quilos e, em 2011, caiu para 39 mil. O coordenador de Pesca e Aquicultura do Dnocs, Pedro Eymard Mesquita, informa que a produção do tucunaré é cíclica, variando entre a quadra invernosa e o período posterior. "Quando os açudes estão cheios a produção estabiliza-se", explica. "Não há motivo para preocupação". Ele esclareceu que a fiscalização de captura do pescado é de responsabilidade do Ibama e lembra que o Dnocs não realiza o peixamento da espécie tucunaré.

Quanto ao incentivo governamental para a captura de pirambeba, defende a ideia de que a iniciativa privada é quem deve encontrar alternativa de aproveitamento e comercialização do subproduto. "Cabe ao governo orientar, ensinar, mas o piscicultor é que deve buscar o mercado para o pescado, transformado em farinha ou outro produto".

Fonte: Diário do Nordeste
HONÓRIO BARBOSA
REPÓRTER

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