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sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

O peixe que tem no prato pode ter sido pescado por um escravo

Antigamente, as preocupações ambientais – como a sobrepesca, a poluição e a pesca ilegal – dominavam as conversas sobre o marisco. Contudo, essa realidade mudou há algum tempo, com a divulgação de relatos sobre escravatura moderna a bordo dos barcos pesqueiros. Anos depois da polêmica, terão as condições de trabalho melhorado?
A resposta é não. Segundo um estudo de 2017 do Issara Institute e da International Justice Mission, sobre os pescadores cambojanos e birmaneses na Tailândia, entre 2011 e 2016, 76% dos trabalhadores migrantes foram mantidos em escravatura durante esse período e 38% foram traficados para trabalhar no setor.



O problema parece, agora, estar a alastrar-se também à Europa. Nos 20 maiores países pesqueiros, Espanha já aparece no grupo com maior risco de trabalho escravo.

Escravatura é uma prática social em que um ser humano assume direitos de propriedade sobre outro designado por escravo, imposta por meio da força. Apesar de ter sido abolida em quase todo o mundo, continua a existir de forma legal no Sudão e ilegal em muitos países, sobretudo na África e na Ásia.

A mudança de paradigma sobre as questões do marisco intensificou-se em 2014, com a divulgação de relatórios (1,2), desenvolvidos por Organizações Não Governamentais (ONG’s) e pelos media.

Nesses relatórios, criados a partir de relatos de testemunhas e entrevistas com as vítimas, foi revelado que os frutos do mar que abasteciam algumas das cadeias de revendedores dos Estados Unidos (EUA) – como a Walmart, a Kroger e a Safeway -, eram capturados ou processados por trabalho forçado.

No entanto, apesar do aumento da consciencialização e dos esforços do governo da Tailândia – que é o quarto maior exportador de marisco do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) – para lidar com esta questão, as condições de trabalho mantêm-se.

Contudo, este país não é o único com trabalho forçado na sua indústria pesqueira, existindo relatos sobre abusos laborais a bordo de barcos americanos, britânicos, chineses, escoceses e taiwaneses.

Em fevereiro de 2018, o Guardian publicou um artigo onde revelava um alerta lançado por ativistas da conservação marinha sobre o risco de estar a ser utilizado trabalho escravo em barcos de pesca britânicos.

Segundo a Walk Free Foundation, os pescadores migrantes, principalmente da Birmânia, do Cambodja e de Laos, assim como tailandeses de zonas empobrecidas, são atraídos para situações de escravatura moderna através de ofertas de emprego aparentemente legítimas. Uma vez recrutados, são ameaçados de violência contra si ou contra membros da sua família, ficam aprisionados e têm os salários retidos.

Trabalho piscatório escravo pelo mundo

O Índice de Escravatura Global 2018, desenvolvido pela Walk Free Foundation, reitera a continuação do trabalho forçado ao nível da indústria pesqueira. Porém, apesar de a escravatura moderna na maior parte do mundo ser reconhecida, são poucas as estimativas confiáveis ​relativamente à sua ocorrência.

Para colmatar essa lacuna, a fundação, em conjunto com outras ONG’s, identificou uma série de fatores associados ao fenômeno. Tendo por base nessa análise, os responsáveis agruparam os 20 principais países pesqueiros consoante o seu grau de risco. Juntas, estas nações fornecem mais de 80% da pesca mundial.

O relatório mostra que a China, a Espanha, a Coreia do Sul e a Tailândia são alguns dos países inseridos no grupo com maior risco de escravatura moderna na indústria pesqueira, que é responsável por 39% das capturas do mundo.

O segundo grupo engloba países com pesca predominantemente doméstica ou geograficamente local, como o Chile e a Índia. Tendencialmente, estes possuem baixos níveis de subsídios por parte do governo, capturas de baixo valor, altos níveis de pesca não declarada e baixo PIB ‘per capita’. No total, devem-se a estes 31% das capturas do mundo.



Os países considerados de baixo risco compõem o terceiro grupo, como é o caso da Dinamarca, da Islândia e dos Estados Unidos (EUA), caraterizados por baixos níveis de captura não declarada, pescado de alto valor e alto PIB ‘per capita’. Esses países geram, no total, 12% da captura mundial.

Neste ‘ranking’, Portugal aparece com um risco médio de escravatura moderna na indústria pesqueira, à frente da Eslovênia, do Quênia e do Iraque – nos quais o risco é elevado -, mas atrás do Uruguai e da Nova Zelândia, onde o risco é baixo.

Para chegar a estas conclusões a fundação analisou seis diferentes fatores, verificando que a escravatura moderna está associada à pesca fora das águas nacionais(conhecidas como Zonas Econômicas Exclusivas ou ZEE), onde a regulamentação pode não ser tão apertada.

Além disso, a pesca em águas distantes aumenta a vulnerabilidade da tripulação à exploração, visto que os navios podem permanecer em locais de pesca remotos por longos períodos de tempo, limitando a monitorização e a supervisão por parte das autoridades.

O PIB ‘per capita’, os subsídios dos governos para embarcações e combustíveis – que enfraquecem a competitividade e originam pressão para cortar custos -, bem como o valor médio de captura por pescador, são outros dos fatores que influenciam o trabalho forçado.

Tecnologia ajuda a combater escravatura moderna

Em fevereiro de 2018, a NPR divulgou um artigo sobre a primeira ferramenta que permite aos retalhistas e revendedores avaliar o risco de trabalho forçado ou infantil associado à captura de pescado.

O lançamento desta ferramenta, desenvolvida no âmbito do programa Seafood Watch, do Monterey Bay Aquarium, surgiu no seguimento de um relatório da Human Rights Watch, de janeiro do mesmo ano. Além de outras questões, o documento confirmava a continuação do trabalho forçado e dos abusos aos direitos humanos na indústria pesqueira da Tailândia, anos após os meios de comunicação terem documentado a prática pela primeira vez.

Esta ferramenta, que atribui classificações de risco de escravatura crítico, alto, moderado ou baixo a atividades piscatórias específicas, não aconselha os revendedores a comprar uma espécie em detrimento de outra, mas incentiva-os a criar mudanças na indústria, trabalhando com os fornecedores para alterar as suas práticas.

Os dados disponibilizados provêm de relatórios sobre os abusos conhecidos, incidências de pesca ilegal, não declarada e não regulamentada, bem como o número de dias que um navio de pesca está no mar. São considerados ainda outros critérios, como a evidência de trabalho forçado ou infantil e de tráfico de pessoas noutros setores do país.

Esta solução ajuda, assim, as empresas a combater o trabalho forçado na indústria pesqueira, que, de outra forma, não seria tão fácil de identificar, devido a barreiras como a distância, o idioma, a cultura e as cadeias de fornecimento, nas quais o marisco troca várias vezes de mãos.

Fonte: ZAP
Imagem: Adam Dean

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O salmão natural


O salmão é um peixe mediano da família Salmonidae, naturalmente encontrados nos oceanos Atlântico e Pacífico, eles retornam à água doce na época da procriação, quase sempre escolhendo o mesmo rio em que nasceu.

A cor vermelha da carne é gerada pelo pigmento Astaxantina, que o peixe absorve ao se alimentar de camarões. Mas como a dieta do salmão é variada, também variam as cores de sua carne - desde branco ou rosa suave, até um vermelho vivo. O salmão permanece na água doce nos dois ou três primeiros anos de vida antes de ir para o mar, suportando temperaturas baixas em água doce ou salgada.

Por todos esses hábitos o salmão é um poderoso antioxidante que ajuda a prevenir doenças cardiovasculares, inflamatórias, e atua no sistema imune. É fonte de Triptofano, Vitamina D, Ácidos Graxos, Selênio, Proteína, Vitamina B3, Vitamina B12, Vitamina B6, Fósforo e Magnésio. É excelente fonte de Ômega 3, substância que reduz em até 81% a chance de ataque cardíaco, segundo estudos recentes.

O salmão de cativeiro

Não haveria razão para polêmica se fosse esse o salmão que consumimos. O problema é que somente 5% de todo o salmão vendido nos Estados Unidos é natural, e a quantidade que chega ao Brasil é irrisória. Mais da metade do consumo mundial atualmente tem como origem viveiros do Chile, Canadá, Estados Unidos e norte da Europa, que reduzem imensamente suas importantes qualidades nutricionais.

Esses criadores abarrotam tanques com peixes, em condições de higiene muitas vezes duvidosas, e os alimentam com farinha e corantes para tentar obter a cor rosada do salmão natural. Pior: utilizam grande quantidade de gordura e altas doses de antibióticos para crescerem rápido, gerando mais lucro.

Em cativeiro, as Astaxantinas que tingem a carne do salmão são substâncias sintéticas derivadas do Petróleo, que, em grandes quantidades, podem causar problemas de visão e alergias e, segundo estudos recentes, podem ser tóxicas e carcinogênicas. A título de comparação, 100g de salmão com corante tem as mesmas toxinas que um ano consumindo enlatados.

Como identificar

Se você deseja os benefícios do salmão verdadeiro, primeiro certifique-se de que da procedência. Infelizmente, não há uma exigência da Anvisa que os rótulos identifiquem se o peixe foi criado em cativeiro ou ao natural, mas muitas embalagens trazem o país de origem. Os melhores são provenientes do Alasca e da Rússia. Se for do Chile, evite, pois metade do salmão consumido no mundo vem de cativeiros chilenos.

O preço também é uma boa referência e, infelizmente, o salmão natural é caro. Um salmão que custe menos de R$ 40 o quilo provavelmente é de cativeiro. Outra dica importante é que o peixe de criadouro não resiste bem quando enlatado, logo, o salmão em lata provavelmente é verdadeiro.

Por conta do preço, os restaurantes costuma utilizar o salmão de cativeiro. Cobram caro e, na maioria das vezes, oferecem um peixe com valor nutricional baixo e elevada gordura ruim, que contém corantes, antibióticos e demais substâncias indesejáveis. Para comer o verdadeiro salmão, o ideal é comprá-lo em peixarias que possam informar a procedência, e prepará-lo em casa.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Chile: Mortandade de camarões são um mistério


Gregorio Ortega trabalha como pescador na cidade de Coronel, a 330 quilômetros de Santiago, no Chile, desde os nove anos de idade. Hoje, aos 69 anos, o chileno ficou surpreso ao chegar para trabalhar e encontrar a praia coberta por uma camada vermelha.“Nunca vi nada parecido por aqui”, disse o experiente pescador ao jornal The Mirror desta quinta-feira (21-03). Ortega estava referindo-se aos milhares de camarões que apareceram mortos e “pintaram” de vermelho grande parte da praia.





Segundo Ana Maria Aldana, responsável por questões ambientais na região, amostras dos animais estão sendo coletadas por especialistas com o objetivo de determinar a causa da morte em massa.

Fonte: Planeta Bicho
Foto:  The Mirror


Autoridades chilenas estão investigando o aparecimento de centenas de milhares de crustáceos mortos em uma praia na cidade de Coronel, 530 quilômetros ao sul de Santiago.

Pescadores locais acusam usinas termoelétricas locais de produzir dejetos que contaminam as águas.

Os responsáveis pela investigação estão coletando amostras para descobrir se foi cometido algum crime contra o meio ambiente na região.

Nos últimos anos, um número surpreendente de animais marinhos mortos têm aparecido em diferentes pontos da Costa Pacífica sul-americana.

Segundo especialistas ambientais, possíveis causas incluem exploração petrolífera, fontes alimentares contaminadas ou algum tipo de vírus.

Fonte: UOL


           
   
           
   
           
   
           
   
           
   
           
           
           
   
       




quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Chile - Pescadores voltam a protestar


 
Pescadores chilenos organizaram nesta quinta-feira uma nova jornada de protestos no sul do Chile contra uma lei de pesca que está sendo debatida no Congresso, e que, segundo os manifestantes, acabará com a atividade artesanal.

Mais de mil pescadores artesanais bloquearam com barricadas e veículos, pelo segundo dia consecutivo, a via que dá acesso à cidade de Constitución, localizada cerca de 250 km ao sul de Santiago, uma das principais áreas pesqueiras do país.

Os manifestantes protestam contra a nova norma pesqueira, enviada ao Congresso pelo governo, por considerarem que beneficiará as grandes empresas pesqueiras que atuam no Chile, provocando o desaparecimento da pesca artesanal.

"O Governo não deu bola para os problemas dos pescadores artesanais e segue dando prioridade ao setor industrial, o que prejudica todas as nossas famílias", disse à imprensa local Leonel Lucero, líder dos pescadores.

Os pescadores também exigem a libertação de quatro de seus companheiros detidos durante um confronto com a polícia na quarta-feira.

Cerca de cem pescadores bloquearam uma estrada em Tirúa, na região de Biobío, cerca de 550 km ao sul de Santiago, enquanto por volta 200 manifestantes ocuparam a Prefeitura de Arauco por mais de quatro horas, também em rejeição à norma.

A nova lei busca regular o setor pesqueiro e introduzir critérios científicos para estabelecer as cotas de pesca, em meio a denúncias de pesca predatória, junto com o uso de sistemas de localização de embarcações menores.

No Chile, um dos principais produtores de farinha de pescado, cerca de 120.000 famílias vivem da pesca artesanal.
 
Fonte: AFP
 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Winnipeg o navio da esperança


Um "poema" que jamais será esquecido por todos aqueles que fizeram esta viagem graças à solidariedade do grande poeta e humanista Pablo Neruda.


O exílio republicano espanhol refere o conjunto de cidadãos espanhóis que durante a Guerra Civil Espanhola de 1936 a 1939 e o imediato pós-guerra, viram-se forçados a abandonar a sua terra natal e deslocar-se para outros países por motivos ideológicos e de consciência ou por temor às represálias por parte do bando vencedor e do regime político autoritário instaurado na Espanha, permanecendo no estrangeiro até a evolução das circunstâncias internas do país permitir o regresso, embora fossem muitos os que finalmente se integraram nas sociedades que lhes deram refúgio, contribuindo em alguns destacados casos para o seu desenvolvimento.

Uma grande parte dos primeiros refugiados, até 440 mil na França segundo um relatório oficial de março de 1939, tiveram de afrontar inicialmente duras condições de vida, que se agravaram como resultado do estouro da Segunda Guerra Mundial e embora muitos de eles conseguiram regressar na década de 1940, o exílio republicano "permanente" ficou constituído por umas 220 mil pessoas, das quais muitas eram ex-combatentes, políticos ou funcionários públicos comprometidos diretamente com a causa republicana . No entanto, havia também milhares de parentes e civis, com um número significativo de crianças, intelectuais, personalidades da cultura e artistas, cientistas e docentes, e pessoas de profissões qualificadas, o que implicou um condicionante mais nas consequências do conflito no processo de reconstrução do país.

Os principais países de destino foram a Argentina, a França e o México, mas também foram amparados grupos importantes em outros países europeus e americanos como Chile, Cuba, a República Dominicana, a União Soviética, os Estados Unidos e o Reino Unido.

Com o fim da guerra civil chegaram ao Chile milhares de espanhóis perseguidos pela ditadura de Franco. Muitos vieram no Winnipeg, que desembarcou em Valparaíso em 1939.

O poeta chileno Pablo Neruda organizou a viagem de Winnipeg.

Em setembro 3, 1939, 2365 republicanos espanhóis desembarcaram em Valparaiso. Sua viagem para Winnipeg bordo de um barco fretado pelo poeta Pablo Neruda, foi um dos capítulos mais marcantes do exílio após a Guerra Civil Espanhola.

O poeta, que tinha sido cônsul em Barcelona e Madrid, foi no Chile, onde ele tinha executado a campanha de Pedro Aguirre Cerda, recém-eleito presidente.

"Neruda estava conversando com Aguirre Cerda e pediu para nomeá-lo cônsul para a emigração espanhola para o Chile. E o presidente fez um pedido" Sim, trazer milhares de pescadores espanhóis, o País Basco, Castela, Extremadura ... Nós trabalhamos para todos ' ", disse Ferrer.

O Chile também foram tempos difíceis e, após o terrível terramoto de Chillan, que matou mais de 30.000 pessoas, o país precisava de trabalhadores.

Sim, trazer milhares de pescadores espanhóis, o País Basco, Castela, Extremadura ... Nós trabalhamos para todos.  E com esta missão, Neruda foi para Paris.

Lá, o poeta entrou em contato com o Departamento de Espanhol de evacuação para os Refugiados (SERE), que começou a enviar cartas para as pessoas que fugiam da guerra.

Para levá-los para o Chile, Neruda precisava de um barco e é assim que a cena entrou em Winnipeg.

O antigo cargueiro francês Companhia de Navegação para transporte de tropas haviam servido na Primeira Guerra Mundial. Embora não tenha sido usado para longas distâncias ou grupos de mais de 20 pessoas, em beliches seus armazéns foram instalados mais de 2.000 pessoas.

Fonte: Wikipedia e Boilerdo
Foto: Maurício Lobo


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Chile planeja legalizar matança de leões marinhos e ecologistas reagem


A matança de leões marinhos é um foco de protestos comum de ecologistas no Chile. E a indignação tem tudo para se intensificar caso seja colocado em prática o “Plano de Manejo Populacional de Leões Marinhos” pelo governo de Sebastián Piñera, que legaliza a caça do animal.

Leia mais:
Opositores à caça refutam tese de "praga de leões marinhos" e condenam salmoneiras

O projeto, em estudo pela atual administração desde janeiro, mas que ganhou impulso em julho com a chegada de Pablo Longueira ao Ministério da Economia, pretende eliminar os decretos ambientais que protegem esses animais e estabelecer quotas de caça aos pescadores artesanais que, segundo o governo, são os principais interessados. Isso porque os leões marinhos consumiriam todos os peixes de áreas dedicadas à pesca artesanal.

Victor Farinelli/Opera Mundi

Os leões marinhos -- na foto, um grupo em Valparaíso -- são nativos do Chile e têm a caça proibida

De acordo com Juan Carlos Cárdenas, diretor da ONG Ecoceanos, uma das responsáveis pela campanha SOS LEÕES MARINHOS, a versão do governo é mentirosa. O médico veterinário afirmou que os principais interessados no extermínio dos leões marinhos no litoral chileno são as grandes empresas salmoneiras do sul do Chile.

Cárdenas explicou que os ataques dos leões marinhos aos grandes cativeiros de salmão do sul chileno geram perdas anuais de aproximadamente US$ 140 milhões e que a espécie – nativa – é alvo de matanças ilegais desde a introdução do salmão na biodiversidade marinha do país nos anos 1980, quando a recém surgida indústria salmoneira encontrou nos mamíferos um dos principais inimigos da expansão da produção.

As mensagens do governo sobre o tema são confusas. Guillermo Rivera, diretor do SernaPesca (Serviço Nacional de Pesca, responsável pela regulação do setor no Chile) na região de Chiloé, principal pólo salmoneiro do país, declarou ao jornal local La Estrella que “não é necessária uma lei específica para a caça de leões marinhos, pois a espécie consta na lista de recursos marinhos autorizados pelo governo”.

Na página do SernaPesca, porém, o leão marinho comum (Otaria flavescens) não consta na lista de espécies consideradas recurso marinho aptos para a pesca, embora apareçam em uma lista de espécies em conservação nove diferentes espécies de pinípedes (família à qual pertencem os leões marinhos, focas e morsas). Cárdenas diz que as espécies na lista são típicas das zonas austral e subantártica chilena, e não se trataria do leão marinho comum.

O líder ecologista, para quem o Plano de Manejo Populacional de Leões Marinhos como “uma medida populista, cruel e inútil”, diz que os pescadores artesanais estão sendo usados pelo governo e pela indústria pesqueira, com culpa caindo somente sobre eles.

Oceanos/Arquivo

Banner da campanha SOS LEÕES MARINHOS

Versão dos pescadores

Por sua parte, o presidente da CONAPACH (Confederação Nacional dos Pescadores Artesanais do Chile), Hector Morales, desmentiu que a política de eliminação dos leões marinhos foi motivada pelos pescadores. “Não pedimos nada, nem participamos da elaboração de nenhum plano”, afirmou ao Opera Mundi. “Os pescadores só apoiarão um projeto caso ele conte com apoio da sociedade e dos ambientalistas”, concluiu.

Entretanto, na mesma edição do La Estrella de Chiloé em que o diretor do SernaPesca afirma não ser necessária lei específica para a caça de leões marinhos, Morales disse que “os pescadores estão de acordo, em termos gerais [com a ideia de caçar leões marinhos] já que a lei permite a pesca de investigação, além de outras muitas alternativas de exploração bastante rentáveis”.

Em Valparaíso, no litoral central do Chile, onde existe uma das mais antigas e organizadas comunidades de pesca artesanal do país, os pescadores artesanais dizem que não se consideram representados pela CONAPACH. Segundo eles, a diretoria é formada majoritariamente por donos de barcos pesqueiros, que negociam políticas com o governo de acordo com os interesses deles e não dos verdadeiros pescadores.

Um dos mais antigo pescadores de Valparaíso, Luis Ottermann trabalha no mar há mais de 60 anos, e hoje diz que mal consegue o suficiente para sobreviver. “Nos últimos dois meses, meu barco voltou cheio somente cinco ou seis vezes, e na maioria dos dias não encontro nada”.

Victor Farinelli/Opera Mundi

Luis Ottermann, em pátio utilizado pela comunidade de pescadores Caleta Portales, em Valparaíso

Luis herdou a profissão do pai, quem também lhe deixou o barco, vendido há mais de 15 anos. Hoje, ele precisa alugar um para poder seguir trabalhando. “Quando tinha o meu barco, conseguia pescar até uma tonelada por mês, e tudo o que vendia era meu. Agora, minha renda é menos da metade da pesca do dia”, disse.

Luis negou que os pescadores estejam por trás do projeto sobre os leões marinhos, mas não descartou se dedicar à caça caso seja uma opção rentável. “Se for para proveito dos pescadores e melhorar as condições em que a maioria vive atualmente, como vou dizer que não?”, questionou.

Fonte: Opera Mundi

terça-feira, 21 de junho de 2011

Aquicultura vai crescer e precisa melhorar


Por Celso Calheiros

Foto: Uma área de produção na Tailância. crédito: Conservação Internacional

A aquicultura vai continuar a crescer em todo o mundo, é o meio de produção de proteínas que menos impactos ambientais produz, no entanto precisa melhorar bastante os métodos de produção para alterar menos o meio ambiente. Essas conclusões fazem parte do estudo Blue Frontiers: Managing the environmental costs of aquaculture (Fronteiras azuis: gerenciando os custos ambientais da aquicultura), recém publicado em Bancoc pela World Fish Center e pela Conservação Internacional (CI).

O relatório investigou o impacto ambiental dos principais sistemas de produção de aquicultura no mundo e traz dados impressionantes. Conclui-se que a aquicultura é um dos setores de produção de alimentos com maior crescimento no mundo (desde 1970, as taxas médias são de 8,4% e a produção em 2008 atingiu 65,8 milhões de toneladas de acordo com a FAO) . É uma indústria que superou a marca dos US$ 100 bilhões e oferece metade de todos os pescados consumidos – superou o capturado em seu ambiente.

O trabalho comparou necessidades em todo mundo por 13 espécies, em 18 países, cinco tipos de alimentação e diversos sistemas de criação. Foram 75 sistemas produtivos avaliados. Uma das observações é que quanto maior a produção, maior o impacto ecológico. Ainda assim, se comparado à pecuária e à suinocultura, a aquicultura é mais eficiente na produção de quilos de proteína.
Outros dados relevantes apontados no relatório: os frutos da aquicultura contribuem menos para as emissões de nitrogênio e fósforo, logo reduzem o impacto nas mudanças climáticas considerando o alimento produzido. Ao se comparar com a carne suína ou boniva, o produto da aquicultura converte mais proteína do alimento produzido, por isso gera menos desperdício.

Impactos no Brasil

A carcinicultura marinha (criação de camarões) no Brasil, em 1996, teve uma produção inferior a 1 mil toneladas/ano. Crédito : Conservação Internacional
O ponto negativo ficou ao se analisar a aquicultura sem comparações. O impacto ambiental é real e pode ser ainda pior dependendo do país, região, sistema de produção e da espécie cultivada. Nesse aspecto, o Brasil fornece exemplos.

A carcinicultura marinha (criação de camarões) no Brasil, em 1996, teve uma produção inferior a 1 mil toneladas/ano. Em 2003, passou a produzir 90 mil t/ano e, nos anos seguintes, caiu para a casa das 60 mil t/ano. O diretor do Programa Marinho da CI-Brasil, Guilherme Dutra, considera esses números exemplos do crescimento não sustentável. “Esse crescimento rápido se deu a custa de ocupação e do comprometimento de áreas de manguezais e apicuns, fundamentais para a vida marinha e afetou a pesca artesanal nas regiões próximas”.

A atividade, explica o site do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) pode ser desenvolvida com a criação de peixes (de água doce ou do mar), produção de moluscos como ostras, mexilhões, caramujos e vieiras (malacocultura), camarões, caranguejo, siri, rãs, jacarés ou mesmo o cultivo de algas. No Brasil, ela engatinha, tropeça e arrisca seus primeiros passos.

A primeira fazenda marinha, a Aqualíder, foi inaugurada em 2009 para produção de um peixe típico do nosso litoral, o beijupirá. A fazenda fica a 11 quilômetros (mar adentro) da Praia de Boa Viagem, no Recife, tem 48 tanques-redes e planeja produzir 10 mil toneladas do peixe, por ano.

A espécie mais criada no Brasil é a tilápia, com produção nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste. Na região Norte, a produção maior é de pirarucus e tambaquis. No sul, são criadas carpas, ostras e mexilhões (na região Sul). No Centro-Oeste, a preferência é por tambaquis, pacus e pintados.

O setor tem todas as razões para crescer no Brasil, uma vez que corre no país 12% da água doce do planeja, além de possuirmos 8 mil quilômetros de litoral. A Embrapa em Palmas, Tocantins, pesquisa quais são as espécies mais produtivas e os sistemas de alimentação mais econômicos.
Mundo

Pescados em Shichuan, na China. País tem a maior a aquicultura no planeta. Crédito: Conservação Internacional
A aquicultura, revela o trabalho da World Fish Center e CI, é representativa para a produção mundial de alimentos e precisa de avanços em pesquisa e inovação para superar a falta de sustentabilidade. O maior desafio é a produção em larga escala.

A Ásia como um todo, sendo a China um destaque, respondem por 91% da produção de pescado cultivado. A China isoladamente produz 64% do total do planeta. A Europa 4,4%, a América do Sul 2,7%, a América do Norte 1,9% e a África 1,6%.

A carpa é a espécie mais produzida na Ásia e o salmão é o preferido na Europa e na América Latina. As tilápias são o destaque na África (e a espécie começa a ser produzida no sertão nordestino).

As espécies cultivadas que geram maior impacto ambiental são a enguia, o salmão, camarão e pitu, devido ao consumo de energia e à grande quantidade de peixes usados como ração. Na outra ponta, as aquiculturas que geram menos impacto são os mexilhões e as ostras, os mariscos e as algas marinhas.

Embora a China seja líder em volume de produção, tem o que aprender. O estudo chegou à conclusão que os métodos de produção do norte da Europa, Canadá e Chile são mais eficientes do que os dos países asiáticos, em especial na acidificação, mudanças climáticas, demanda de energia e ocupação do solo. A China também tem a aprender quando o assunto é carcinocultura. A criação de camarão na Tailândia é mais eficiente em termos de acidificação, alterações climáticas e demanda energética.

A aquicultura hoje já representa 99% da produção de algas marinhas, 90% das carpas e 73% do salmão consumidos, além de metade do consumo de tilápias, bagres, mariscos, caranguejos e lagostas.

Além do relatório, um documento sugere políticas públicas, modelos de organizações de desenvolvimento, recomendações ambientais e para os profissionais da indústria de aquicultura. O destaque é o apoio à inovação, a garantia de um marco regulatório que apoie necessidades ambientais. As recomendações são críticas e se aplicam globalmente, mas as distintas realidades regionais imprimem graus diferentes em sua importância relativa.

Fonte: O ECO

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Chile: Conflito entre a Pesca e Indústria de Celulose


Pescadores artesanais e comunidades indígenas levaram à justiça internacional 15 anos de conflito com a empresa Celulose Arauco & Constitución (Celco), que acusam de querer despejar resíduos tóxicos, e o Estado chileno por suposta violação de direitos humanos.

A fábrica de celulose Valdivia, propriedade da Celco, está a 500 metros da margem sul do Rio Cruces, na Região dos Rios, águas acima do Santuário da Natureza Carlos Anwandter e a 40 quilômetros da Baía de Maiquillahue, ou Mehuín, lar de comunidades que vivem dos recursos do Oceano Pacífico.

A empresa quer construir uma tubulação de 36,9 quilômetros desde a fábrica até Mehuín, com um emissário submarino de 2.075 metros de comprimento que descarregaria, por meio de difusores, os resíduos da celulose no mar, a 18 metros de profundidade. A Baía de Mehuín, a sudoeste da capital, é habitada por pescadores artesanais e mapuches lafkenches (“gente da costa”) que, desde 1996, se opõem à intenção da companhia.

Em 2004, a empresa tentou lançar seus resíduos no Rio Cruces, mas, após uma generalizada mortandade de cisnes de pescoço negro no Santuário, dois anos mais tarde retomou a ideia inicial do duto para o Pacífico. A Valdivia produz 550 mil toneladas anuais de celulose de exportação. Em março, o caudal variável do Rio Cruces a obrigou a suspender os trabalhos, quando chegou abaixo dos cinco metros cúbicos por segundo, limite mínimo estabelecido pelas autoridades para a produção de celulose, que consome muita água.

O Chile fornece 6% das 48 milhões de toneladas de celulose para papel comercializadas a cada ano no mundo. As vendas chegaram, no ano passado, a US$ 1,79 bilhão. O setor florestal responde por 3,1% do produto interno bruto. A população afetada pelo duto – autorizado em 24 de fevereiro de 2010 pela Comissão Regional de Meio Ambiente (Corema) e cuja construção demoraria dois anos – é composta de 20 comunidades lafkenches e pescadores artesanais de Mehuín, Cheuque, La Barra e Mississippi. Também há 20 comunidades indígenas situadas mais ao sul e organizações sindicais cm quase mil pescadores associados que também podem sofrer em áreas vizinhas.

“Aqui há vítimas, comunidades indígenas que têm seus espaços cerimoniais violados”, como um cemitério indígena que seria cortado pelo traçado do duto, disse à IPS o porta-voz do Comitê de Defesa do Mar, Eliab Viguera. O Comitê interpôs na justiça recursos contra a autorização da Corema e reclamou a defesa da integridade e da vida dos pescadores lafkenches e o direito de pertinência costeira desses povos indígenas, estabelecido por lei. Mas o pedido foi rejeitado no Supremo Tribunal de Justiça.

“O estado de violência exercido em Mehuín foi brutal, muitas pessoas foram vítimas das máfias, pagas pela Celulose Arauco, que perseguiram todos os defensores do mar, não importando se fossem idosos ou crianças”, acrescentou Viguera. O dirigente assegura que nos últimos anos sofrem desde ameaças de morte até ofertas em dinheiro para desistirem da luta.

“Repassaram dinheiro para assinar um convênio de colaboração, depois fizeram um pagamento para apoiar os estudos técnicos que a empresa precisava para gerar o estudo de impacto ambiental, em seguida foi feito outro pagamento quando foi dada a permissão ambiental e, supostamente, farão novo pagamento quando o duto estiver construído”, disse o coordenador do programa Cidadania e Intercultura do não governamental Observatório Cidadão, José Araya. Contudo, a tentativa de desarticular o movimento conseguiu somente a vontade de um punhado de pescadores de Mehuín, disseram as fontes.

Esgotadas as instâncias internas, o Comitê apresentou uma denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), solicitando medidas cautelares urgentes e a paralisação de qualquer trabalho ligado à construção do duto. “O Estado deve responder pelas vulnerabilidades aqui exercidas”, disse Viguera.

Araya destacou que um dos pontos da denúncia se refere aos direitos das comunidades nativas, que não foram ouvidas sobre uma obra a ser feita em seu território, como estabelece o Convênio 169 sobre Povos Indígenas e Tribais da Organização Internacional do Trabalho, que entrou em vigor no Chile em 15 de setembro de 2009. O duto foi aprovado quatro meses depois e, embora o Estado tivesse um ano para adequar leis e normas internas ao Convênio, não avançou muito neste aspecto.

O processo junto à CIDH enfatiza o “direito ao território, porque estamos falando de mapuches e porque não foi respeitado o Convênio 169; e no direito à vida, pois os efeitos ambientais são prejudiciais para comunidades que vivem da pesca e de atividades recreativas ligadas ao mar”, disse Araya à IPS. A IPS consultou a Direção de Direitos Humanos da chancelaria chilena, que deve representar o Estado perante a CIDH, mas esta não quis fazer declarações.

A Celco, que possui cinco fábricas de celulose no Chile e outra na Argentina, tem antecedentes de contaminação. Várias vezes teve de suspender a operação em Valdivia por ordem judicial, entre outras razões por trabalhar além do limite de produção. A descarga de dejetos no Rio Cruces – suposta causa da morte dos cisnes – foi comprovada por peritos judiciais que apresentaram seus relatórios no final de março, dentro de um processo civil contra a Celulose Arauco por dano ambiental, iniciado pelo Conselho de Defesa do Estado.

Estes resultados “são bastante concludentes. A empresa tem responsabilidade na contaminação, ultrapassou os limites e ocultou informação à autoridade pública”, disse Araya. Nesse contexto, causou escândalo que o único canal público de TV no país, Televisión Nacional de Chile, divulgasse, no dia 2 de abril, uma reportagem favorável à empresa. O Conselho Nacional de Televisão, a Associação de Documentaristas do Chile e o Conselho de Defesa do Estado condenaram o tratamento jornalístico do trabalho, que não mostrava equilíbrio entre as partes. Pouco depois, a empresa reconheceu que havia contratado o diretor Sergio Nuño para elaboração de um documentário que apresentou no julgamento que ocorre no Conselho de Defesa do Estado.

Enquanto os pescadores aguardam que a CIDH acolha sua demanda, especulam que a Celco não pode iniciar a construção do duto porque a permissão ambiental que possui não permite que ingresse no mar. Para isto, deve solicitar autorizações marítimas. Apesar da insistência da IPS, a Celco não quis comentar estes fatos.

Fonte: IPS

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