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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

CE - Lagosta à la sumiço


Mar azul, céu ainda mais azul. Na última sexta-feira, na Praia da Redonda, litoral leste do Ceará, cinco jangadas a vela apontavam no horizonte. Passava do meio-dia, o sol deixava a areia em brasa e ficar ali, na beira da água, só se justificava pela esperança de que viessem carregadas de lagostas. Uma a uma, as jangadas, que tinham saído para o mar de madrugada, foram ancorando e recolhendo as velas.

Da primeira, dois pescadores lançaram-se ao mar com pequenos baldes. Vieram nadando devagar. As ondas deram o empurrão final rumo à terra firme e eles saíram cambaleantes, short, camiseta e boné ensopados grudados na pele. Os baldes vazios. “Não tem nada. Estamos fudidos”, disse um deles. Apertaram o passo e sumiram na areia.


“Este é o pior ano de pesca de lagosta que já vi”, Geraldo Bidéi, o decano da praia, de 65 anos – 58 de pesca. FOTOS: Filipe Araújo/Estadão

A cena se repetiu naquela tarde, quando apenas duas lagostas foram capturadas após um dia inteiro no mar. Quem as exibiu, meio envergonhado, meio orgulhoso, foi Leudo Ferreira, de 36 anos. Mas ele é exceção entre os 800 pescadores da Redonda: os baldes vazios têm sido rotina. “É o pior ano para pesca da lagosta que já vi”, diz Geraldo Bidéi, o decano da praia, de 65 anos – 58 de pesca. Os colegas concordam. Há 20 anos, na Redonda, cada pescador trazia, em média, 50 kg a 60kg de lagosta por dia. Hoje não se pesca isso num ano.

A Praia da Redonda pertence ao município de Icapuí e assim como Barreiras, Tremembé, Barrinhas e Quitéria, as outras praias da região, tem a pesca como principal fonte de renda. A diferença é que só na Redonda a pesca de lagosta é artesanal: barcos a vela, armadilha feita de madeira e rede de náilon, o manzuá.

Nas outras praias, a pesca é feita com barcos motorizados e marambaias – tambores de ferro usados como armadilha. Os pescadores achatam os tambores aos milhares e os atiram no mar, marcando a localização com GPS. As lagostas entram nessas armadilhas e, sem espaço para se virar e sair, acabam capturadas por mergulhadores, que descem a até 30 metros de profundidade com ajuda de um precário sistema de compressão de ar em botijão de gás. Para criar coragem, muitos usam crack. Ou descem em apneia, com risco de embolia pulmonar. Acidentes fatais são frequentes e o método, arriscado, é proibido.

Chamados de piratas pelos pescadores da Redonda, os pescadores de compressor são acusados de ter acabado com a lagosta da região. A disputa entre eles já deixou três mortos (leia abaixo), numa briga que se arrasta há mais de 20 anos e expõe a insustentabilidade da produção de lagostas no Brasil.

A pesca com o manzuá, como é feita na Redonda, é a única permitida por lei. Os pescadores saem por volta das cinco da manhã e lançam a armadilha a até 30 quilômetros da costa. No meio do manzuá, uma cabeça de bagre serve de isca.

Deixam lá por um dia e voltam para recolher as lagostas que caíram na armadilha. Mas como saber onde foram deixados os manzuás? O pescador Cosme da Silva dá uma risada: “A gente olha as moitas na terra, tira uma base e vai lá para dentro”, diz apontando o mar. A trama da rede da armadilha é larga o suficiente para deixar passar as lagostas pequenas, que não podem ser pescadas.

A pesca como é praticada nas praias vizinhas é ilegal. No entanto, é a que mais cresce e ameaça a lagosta no Ceará, o Estado que mais produz o crustáceo, e também no Rio Grande do Norte e Pernambuco, os outros grandes produtores – onde nem há mais pesca de manzuá. Por ali, lagosta só com rede, marambaia e mergulhador.

E o problema se agrava: desde 2008, quando o Ibama parou de fazer relatórios, não há dados precisos da produção pesqueira no Brasil – a função caberia ao Ministério da Pesca, escanteado na política federal. Os dados mais confiável são os de exportação. O quadro é preocupante: no ano passado saíram 2.261 toneladas do Ceará até o fim de novembro.

Neste ano, foram apenas 1.113 toneladas até agora.

Ontem (30/10), os pescadores da Redonda fizeram um protesto em Fortaleza. Reivindicam fiscalização. E a situação está tão ruim que eles já decidiram parar de pescar um mês antes do defeso – que vai de dezembro a maio. A maioria não respeita a proibição.

“No último defeso se comprava lagosta fresca todo dia no mercado de Mucuripe”, diz Paulo Lira, engenheiro de pesca e pesquisador da Universidade Federal do Ceará. “É um problema seriíssimo de sobrepesca.”
A continuar nessa toada, a renovação desse cobiçado fruto do mar no Brasil fica comprometida. E a lagosta, cada vez mais rara, cara e menor.

Por: Jose Orenstein
Fonte: Paladar

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Miniaturas expõem arte e primor do velho jangadeiro


Reconhecido como Mestre da Cultura Popular, José Pereira de Oliveira, 87 anos, ainda produz todos os dias


O artesão começou a produzir os objetos com 50 anos, quando não pôde mais pescar

Aquiraz No manuseio de pequenas madeiras de timbaúba, o ancião chega a assemelhar-se a uma criança, construindo um novo brinquedo. Mas, numa análise mais atenta, observa-se o peso da maturidade, que se manifesta na meticulosidade dos detalhes, precisão de símbolos justapostos e graciosidade do produto. Trata-se do artesão José Pereira de Oliveira, 87, uma das personalidades cearenses agraciadas com o título de Mestre da Cultura Popular, nascido e criado na Prainha, litoral de Aquiraz.

Apesar da idade, Oliveira não abre mão de seu trabalho artesanal todos os dias. As réplicas das jangadas são de quase todos os tamanhos. No entanto, o encantamento é maior entre as miniaturas, as mais procuradas por turistas e comerciantes que lidam com os souvenirs e objetos de decoração de ambientes.

O ofício de artesão começou quando já não mais podia pescar, por conta de uma doença que comprometeu sua visão. Como nos tempos de criança, costumava fabricar pequenas jangadas para brincar no Rio Maceió, que desemboca naquele trecho do Litoral Leste do Estado.

Chegou a cursar até a quarta série, mas teve que interromper os estudos com a morte do pai. Assim como os irmãos, foi buscar a subsistência no mar. "Eu podia ter tentado a agricultura. Mas, os homens da minha família eram pescadores e eu segui esse ofício", conta.

Juventude

Nos tempos de sua juventude, a principal fonte de subsistência era a pesca, obtida com a jangada, que singrava o mar sempre na incerteza de se haveria boa pesca, ou até mesmo se a embarcação resistiria às mudanças súbitas de humor das marés. Assim, continuou pescador até os 50 anos de idade, quando ficou doente e não pôde mais ir ao mar. Para sustentar a mulher e os oito filhos, lembrou-se da antiga brincadeira de produzir jangadas. Daí que começou a vender, ser procurado por comerciantes de artesanato e ganhou fama pela qualidade de seus trabalhos.

Oliveira mora na Rua Damião Tavares, onde criou os filhos e, ainda hoje, boa parte dos netos. Na Prainha, via a transformação radical pela qual o lugar passou.

De uma antiga aldeia de pescadores e referência maior da mulher rendeira para uma praia com uma ocupação desordenada e com o setor imobiliário valorizado. Com isso, a pesca, renda de bilro e outros manifestações artesanais foram postas de lado e, até mesmo, negligenciadas pelas novas gerações.

Identidade

O dano maior, conforme avalia, se deu nas pessoas do lugar, da perda da identidade simples. "É triste ver os jovens envolvidos na droga e na prostituição. Mais triste é saber que existe solução para essas pessoas, que é o trabalho", afirma. Oliveira não apenas trabalha para ocupar o tempo, mas porque é consciente de que o primor do que se faz pode ser sempre melhorado.

Com o titulo de Mestre da Cultura, ganha um salário mínimo por mês. Além disso, recebe ajuda dos filhos, mesmo aqueles que moram distante e em outros Estados. Ainda se reúnem todos os anos em torno do patriarca.

Legado

"Meu legado maior foi a criação de meus filhos. Mais do que um pai, procurei ser um educador rígido, ensinando pelo diálogo e o exemplo. E assim formei uma família num alicerce forte", diz o artesão, lembrando que ainda sente muita falta da esposa, Auristide da Costa Olivera, com quem viveu 58 anos. Ela faleceu há menos de dois anos.

Para o jornalista e pesquisador da cultura popular, Gilmar de Carvalho, é justo o reconhecimento que se faz a Oliveira. "Fui convidado pela Secult para escrever sobre os mestres", conta. Gilmar lembra que ficou comovido com a delicadeza com que o artista faz as miniaturas.

"Difícil para um homem da idade dele manter a precisão do corte, as minúcias dos detalhes e dar forma a este mundo da pesca artesanal, que está em extinção, infelizmente", ressalta. Na opinião de Gilmar de Carvalho, Oliveira é um grande artesão, pois ajuda a preservar a memória das velhas jangadas de piúba, aquelas que são cantadas em prosa e verso, desde José de Alencar.

"Ele trabalha com a precisão de um relojoeiro, com a perícia de um cirurgião, e nos leva a um mundo encantado, que é trabalho e jogo, vida e brinquedo", destaca. Observa que o reconhecimento veio, em parte, por conta do título de mestre, que ainda é pouco para a grandeza do que José Pereira de Oliveira ele faz.

RECONHECIMENTO

"Ele trabalha com a precisão de um relojoeiro, a perícia de um cirurgião, e nos leva a um mundo encantado"

Fonte: Diário do Nordeste

Gilmar de Carvalho
Jornalista e pesquisador

MARCUS PEIXOTO
REPÓRTER

terça-feira, 18 de setembro de 2012

CE - Crianças ilustram livro sobre ´causos´ de pescador




Sempre transmitidas pela oralidade, as histórias antigas dos povos do mar do Ceará começam a receber registros escritos por seus próprios coadjuvantes. Os causos do pescador Antônio Miolo, da Praia de Canoa Quebrada, ganham páginas de livro, com ilustrações feitas por crianças, sobre as peripécias porque passou o antigo trabalhador, entre o real e o fantástico.

Cada narrativa é ilustrada por desenhos feitos com lápis de cor pelos garotos Felipe, Lana, Tomas, Anderson, Lázaro, Pedro, Bruna e Lucas, da própria comunidade

Nelas as narrativas de um povo que vencia as adversidades sociais convivendo com a natureza e uma imaginação fértil. O livro "Miolo de Pote" traz um pedaço do saber e da experiência de vida dos pescadores que, assim como os sertanejos da região Nordeste, encontram no meio de um dia difícil algum motivo para uma boa risada.

Os causos do pescador Antônio Pereira da Silva, mais conhecido como "Antônio Miolo", davam-se geralmente quando ele voltava do mar e tinha a sua esposa Maria Borges, a "Maria Miolo", de testemunha (ou cúmplice). Como lá deixaram seus filhos, netos e bisnetos, as histórias não cessam.

Labuta

Certo dia, voltando de uma trabalhosa labuta no mar, Antônio Miolo encostou na areia com a jangada cheia de peixe. O que não ficou para comida em casa, foi vendido às mãos de comerciantes. E como pescador completo não apenas pesca, mas "trata" (corta e abre) o produto, pediu à mulher uma bacia e foi à mesa. Quando abriu o bucho de um cação de quase cinco quilos, deixou cair debaixo da mesa um punhado de ovas do peixe.

Colocou tudo que tinha em mãos para cozinhar, mas reparou que sua galinha chocadeira ciscava onde caíram as ovas. Dias depois, no meio de um domingo, seu Miolo percebeu que da ninhada da galinha Griselda havia cinco novos pintinhos, quatro deles "caçãozinhos, balançado as barbataninhas e soltando uns piadinhos diferentes".

Os registros revelam um homem que convivia com a natureza, tinha uma família grande, mas com seus "acontecimentos" não deixava a rotina tirar o brilho das histórias. As idas e vindas para o mar eram entrecortadas por histórias vividas a maior parte em casa, em meio às dunas e falésias de Canoa Quebrada.

Luta

Como no dia em que conseguiu roubar tanto mel de um cacho de abelhas que foi possível encher um balde. O machado usado na "luta" com as abelhas ainda estava sujo de mel e ficou em cima da mesa. O balde com o mel, deixou no telhado, para as formigas não alcançarem. Pois tanto alcançaram apenas o machado melado na mesa que deixaram somente o cabo, devorando a ferragem.

Ilustração infantil

As histórias foram organizadas pelo arte-educador Tércio Vellardi, presidente da Organização Não Governamental (ONG) Recicriança, e pelo jornalista e historiador Túlio Muniz. Cada narrativa é ilustrada por desenhos feitos com lápis de cor pelos garotos Felipe, Lana, Tomas, Anderson, Lázaro, Pedro, Bruna e Lucas. À exceção de Túlio, todos moram na comunidade dos Estêvão, um povoado na Praia de Canoa Quebrada e onde morou o pescador Antônio Miolo.

"Podemos também dizer que a engenhosidade de Miolo denota, sobremaneira, a criatividade dos habitantes locais, profundamente marcados pela oralidade indígena que cria e recria seus personagens num universo mágico, fantástico", afirma Túlio. O livro tenta materializar o que a oralidade transforma a cada nova geração. E pela própria comunidade dos Estêvão ficam outros resquícios da presença de Antônio Miolo.

Como a falésia em que ele batizou de "Mentira" um ovo depositado por um pássaro Albatroz que, horas antes, disputou no mar com ele um peixe fisgado no anzol. "Esta área é pra ficar isolada, vamos proteger o nascimento deste passarinho e batizá-lo com o nome de ´Mentira´, pois ninguém vai acreditar que pesquei um pássaro com meu anzol", teria dito Antônio Miolo.

Perda

O velho pescador morreu no ano de 2004, aos 85 anos, sem a mesma animação quando contava suas histórias desde que sofreu uma "trombose" que o deixou debilitado até a morte. No entanto, seus causos não morreram, e ainda hoje são contados por gente como Girlene Pereira dos Santos, que é sua neta e, também, trabalha como arte-educadora na ONG Recicriança.

Registros do saber reafirmam a cultura
A sabedoria popular, a cultura e as histórias de um povo são geralmente repassadas por meio da oralidade. Essa transferência pode durar gerações, ou não. E para que muitos dos seus valores não morram na praia, as comunidades dos povos do mar no Ceará têm usado as novas tecnologias ao seu favor no melhor estilo "vamos valorizar, antes que nos esqueçam".

Os causos de "Antônio Miolo", davam-se geralmente quando ele voltava do mar e tinha a sua esposa, a "Maria Miolo", de testemunha (ou cúmplice)

E a permanência dos saberes torna-se, também, uma forma de reafirmar a identidade e os valores culturais. A preservação do meio ambiente, do artesanato e, também, da medicina natural são os principais instrumentos de valorização.

Comunidades

Os registros mais evidentes têm se dado em comunidades indígenas do litoral, especialmente por serem essas comunidades ameaçadas do seu direito natural à terra, em que o registro de seus eventos e objetos culturais é uma ferramenta de luta pela permanência no lugar.

Assim se dá com os povos indígenas litorâneos da etnia Tremembé, no Distrito de Almofala, localizado no Município de Itarema. Lá, registro audiovisual, bem como em livros e fotografias, tem revelado a cultura do povo. Outros trabalhos no mesmo sentido são feitos em comunidades como a Lagoa Encantada, dos índios Jenipapo-Kanindé, em Aquiraz.

Resgate

Quando Antônio Pereira da Silva, o Antônio Miolo, faleceu em setembro de 2004, a comunidade dos Estêvão só pensou por alguns instantes que morriam também as histórias do nobre pescador que gostava de dançar o coco e contar as suas aventuras. No segundo momento surgiu a ideia de registrar para a eternidade um punhado das muitas histórias contadas e dramatizadas pelo pescador.

Isso coube à ONG Recicriança, atuante há duas décadas na mesma comunidade, sendo reconhecida nacionalmente pelo trabalho de arte-educação com as crianças da Área de Proteção Ambiental (APA) de Canoa Quebrada.

Os familiares de Antônio Miolo relembravam as histórias do pescador e recontavam a Tércio Vellardi, que as narrou para o livro "Miolo de Pote".

A Associação reuniu algumas das crianças que fazem parte dos projetos para que reproduzissem, à maneira delas, em desenhos algumas histórias escolhidas para o livro "Miolo de Pote". O livro ainda traz joguinhos de cruzadas, jogo de erros e, após cada narrativa, uma dica ambiental também.

Preservação

A preservação do meio ambiente é uma das principais missões da ONG Recicriança. Ambientalista e presidente da Associação, Tércio Vellardi, desenvolve com parceiros da própria comunidade projetos de educação ambiental e de conservação dos recursos naturais.

A instituição recebe estudantes de vários Municípios do Litoral Leste para realizarem trilhas ecológicas com aulas em campo.

A entidade também atua em parceria com outros organismos, como a Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis), atuante, dentre outras atividades, no resgate de mamíferos marinhos nas praias do Ceará.

FIQUE POR DENTRO

Histórias de pescador da Vila dos Estêvão

O "Livro Miolo de Pote - Causos do Pescador Antônio Miolo", foi lançado, na última quinta-feira, na sede da Associação Recicriança, idealizadora do projeto e Organização Não Governamental (ONG). A Associação fica localizada na "Vila dos Estêvão", a mesma em que viveu Antônio Pereira da Silva, o seu "Antônio Miolo", com sua esposa, Maria Borges de Castro. Lá, eles tiveram sete filhos, 26 netos e dez bisnetos. "Miolo" ficou conhecido por ser um exímio pescador e pelas histórias que contava. O livro é um projeto do Recicriança organizado por Tércio Vellardi e Túlio Muniz, com ilustrações das crianças Felipe, Lana, Tomaz, Anderson, Lázaro, Pedro, Bruna e Lucas, que são moradoras da própria comunidade, editoração eletrônica de Gilberlânio Rios. A obra é composta por quatro capítulos. Foram divididos com os títulos de: "As ovas de peixe", "O Porco", "O Albatroz", "O Rato", "O Fogão Velho", "A Vaca", "A Muriçoca", "A Melancia", "O Joanete" e "O Machado". A Associação Recicriança têm vários projetos na área de educação ambiental, desenvolvido na comunidade dos Estêvão. Entre as atividades e trabalhos sociais desenvolvidos podem ser citados, como exemplo, a campanha de preservação das dunas e falésias da Praia de Canoa Quebrada. Em outra frente, priorizando o bem estar das crianças e adolescentes da região, agem no combate à exploração sexual infantil.

Mais informações:

Associação Recicriança Vila dos Estêvão - Canoa Quebrada/Cidade de Aracati www.recicrianca.org.br

REPÓRTER
MELQUÍADES JÚNIOR

Fonte: Diário do Nordeste

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Ceará: Regata exalta tradição das jangadas


Participaram do Circuito Cearense de Jangadas 51 embarcações, cada uma delas com cinco componentes



A primeira edição da regata do Circuito Cearense de Jangadas 2012 levou um grande público à praia da Barra do Ceará, na tarde de ontem. Juntos, os espectadores vibraram e se emocionaram com a competição entre as 51 jangadas. O evento contou com apoio da TV Diário.

Desde a praia da Avenida Leste-Oeste, em frente à Escola de Aprendizes Marinheiros, onde foi feita a largada, até o Vila do Mar, onde ficava a linha de chegada, muitos jovens, adultos e idosos assistiam ao evento. O público aproveitou o momento para tirar fotos e fazer vídeos.

A grande vencedora foi a jangada Gabi; em segundo, ficou a embarcação Nossa Senhora dos Navegantes.

Chegaram em terceiro os jangadeiros da embarcação Ceilândia, em quarto a Imperatriz, e o quinto lugar foi alcançado pela jangada Villani.

Os primeiros colocados receberam R$ 2.500,00 (1º lugar), R$ 1.000,00 (2º lugar) e R$ 500 (do 3º ao 5º lugares). Foram entregues pela Esmaltec geláguas, fogões e geladeiras aos que ficarem até no 16º lugar.

Todos os competidores também receberam cestas básicas.

O diretor de Programação do Sistema Verdes Mares, Edilmar Norões, comentou que o objetivo central do evento é resgatar a cultura dos jangadeiros cearenses. “As jangadas são um símbolo do Ceará. As imagens do nosso Estado, Brasil afora, lembram as velas dessas embarcações”.

Edilmar Norões também destacou que a regata, realizada neste ano na Barra do Ceará, também ajudou a levar para os moradores da Capital as mudanças realizadas em todo o bairro através do Projeto Vila do Mar.

“Trazer a competição para esse local é uma maneira de mostrá-lo para as muitas pessoas que não conhecem esse novo pedaço de nossa cidade. Com isso, o público presente pode participar de um espetáculo bonito e também conhecer essa nova avenida da cidade”, afirmou Edilmar Norões.

Para o diretor de Telejornalismo da TV Diário, Roberto Moreira, o envolvimento de toda a comunidade foi muito importante para a realização do evento. “Em toda a comunidade, existem 400 barcos e mais de cinco mil pessoas vivem disso. Mas, eles nunca tiveram uma regata como essa ao lado de suas residências”, disse Roberto Moreira.

Tradições

O empresário José Joacy Fonseca ficou feliz ao constatar o grande número de presentes na competição. “As pessoas foram se envolvendo aos poucos, pois muitos vivem da pesca e, com isso, foram incentivando a cultura no Bairro”, ressaltou.

Os jangadeiros campeões da primeira edição da regata do Circuito Cearense de Jangadas 2012, Eloildo Ribeiro da Silva, Paulo Menezes, José Maria e Gilmar Carneiro, não paravam de comemorar a vitória. “Devido à boa equipe que temos, conseguimos vencer. Essa foi uma batalha que a gente esperava, mas não sabia como seria. Aqui, todos são mestres no que fazem e, por isso, conseguimos vencer”, afirmou Menezes.

Fonte: Diário do Nordeste

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sexta-feira 13 e superstição


Em dia de sexta-feira 13 vale lembrar a origem da palavra superstição.

A palavra "superstição" vem do latim "super", que significa "acima" e "stare", que significa "acima de". Assim eram chamadas as pessoas que tinham sobrevivido a uma batalha ao invés de seus pares e, portanto, estavam acima dos que não tiveram a mesma sorte.

Somos portanto todos vencedores e sortudos por estarmos vivos e na batalha, seja sexta-feira 13 ou não.

Abaixo uma lenda que fala da superstição de não se poder pescar no dia de finados.

O endiabrado Mandim
Ademar Vidal

No mundo marítimo existe um personagem endiabrado nas suas atitudes de reação. Quando ele quer uma coisa tem de se fazer o que ele quer, sob pena das hostilidades não demorarem muito. Mandim tem um domínio insuperável. As águas obedecem às suas ordens e os peixes se conduzem conforme os seus desejos de chefe. O pescador precisa andar muito direito porque do contrário sofrerá as conseqüências. Também o duende pede pouco. Não exige muita coisa, não. Ele mantém um luxo que não há meio de relaxar. Em todos os outros costuma ceder, mas num deles faz finca-pé, segura-se e não há meio de afrouxar. De modo que não permite a pescaria no dia dos mortos. E o jangadeiro que se der ao gosto de contrariar essa vontade, pode ficar certo de que sofrerá as conseqüências de um fracasso completo, nada conseguindo, voltando do mar com as mãos vazias, abanando. No samburá nem uma agulha quanto mais cavala.

Mandim considera-se proprietário único do oceano. Pelo menos do trecho que fica entre o Bessa e a Praia Formosa. A guarda que faz do dia de finados vem de um fato de significação bem humana. Teria naufragado um navio depois dos arrecifes que procedia das bandas da África carregado de negros para a lavoura paraibana. Vinha cheio, entupido mesmo, de coculo. Era tanta gente, que se deu uma catástrofe completa — e o único que poderia ter-se salvado foi exatamente o preto maioral, de nome Mandim. Mas renunciou ao propósito de defender a vida quando viu que os seus companheiros haviam sucumbido nos embates com as ondas traiçoeiras. E deixou-se morrer.

Por uma coincidência, teria acontecido a tragédia exatamente no dia de finados. A autoridade do comandante se passou para outro plano: ficou dirigindo o fiel respeito a certas praxes num campo assinalado pelo sacrifício de tantas existências. Quem pescar naquele dia, se arrepende. Quando muito poderá contar a história.

Sabe-se de um mulato falastrão que teimou em ganhar o oceano contra as ordens do mito que são conhecidas através da tradição. Saiu com o tempo bom, soprando nordeste suave. Largou-se para o alto na esperança de pescar muita garajuba e muita cióba. Depressa a noite chegou, pegando o marinheiro quase de repente — foi coisa mesmo de supetão. Com pouco ele principiou a ver umas luzes ao longe. E as luzes aumentando de volume. Só podia ser um navio iluminado feericamente. E o negócio se aproximando, se aproximando, se aproximando. Era de uma extensão formidável,:mais que um transatlântico, parecia antes um mundo que corria veloz na direção do pescador. E que, sem dúvida, iria esmagar a sua jangada, como um inseto miserável de tão insignificante.

Não eram luzes de eletricidade. Tinham parentesco próximo com fogo-fátuo. O ruído que fazia aquilo que vinha vindo rapidamente era um ruído infernal. Gritos se confundindo com exclamações pavorosas; gemidos lancinantes que se tornavam medonhos dentro da noite. E os peixes saltando desadoradamente como se estivessem muito contentes. Se era o vento, soprava forte e grosso, mais parecendo querer levar tudo de cambalhota. Não havia outro recurso senão fazer o impossível para regressar à praia.

O pescador, então, não quis mais conversa, danou-se para trás, aproveitando a correnteza para mudar de situação. Descobriu a estrela-guia e no seu rumo segurou o leme. A carreira era vertiginosa e de vez em quando olhava a visão se aproximando nos seus lumes de todas as cores. Chegou um momento que sentiu a situação quase perdida. Na confusão ouvia vozes mansas cantando o seu mal-assombrado.

Mandim, mandão, mandá,

Todos morreram no mar,

Longe da terra, bá,

M arabá, má, marabá,

Morrer quis Mandim, mandá

O acompanhamento era num tom fúnebre de cortar coração. Mas que história triste? Para que fora se meter nesse embrulho? Duvidar para quê? Nunca mais haveria de contrariar nada.

Acreditaria em tudo que viesse com a marca do invisível. De em diante seria assim. E o estribilho sem cessar na voz do vento da tempestade.

A terra ficou atrás,

Mandim,

Nunca mais, nunca mais

A lição teria servido ao mulato que havia já viajado por outras terras. Ficou sabendo de uma vez por todas que o fantasma tem força. Tem querer. E quando determina, não admite providência em contrário. Pescar no dia de finados que outro fosse e não ele, que ficara ensinado para sempre. Sentia-se feliz em haver saído são e salvo do embrulho.

Mandim era realmente uma potência que não podia, como não pode, ser contrariado nos seus luxos de mando. Veio de longe, trouxe sua gente, naufragou, morreram todos. Quis sacrificar-se voluntariamente na companhia de sua gente. Em compensação requeria respeito e que se guardasse o dia do ano, ou da semana, a sexta-feira. Não admitia pesca. Os peixes que folgassem. E quem quisesse mexer consigo que se metesse com muita coragem para suportar o repuxo e perder.


(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.39-41)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

CE - Pescadores participam de regata


Disputa na Praia do Arpoador envolveu 250 pescadores  (GABRIEL GONÇALVES)
Disputa na Praia do Arpoador envolveu 250 pescadores (GABRIEL GONÇALVES)

Pescadores das praias do litoral Oeste de Fortaleza participaram domingo da II Regata Vila do Mar, na praia do Arpoador, no bairro Cristo Redentor. A competição promovida pela Prefeitura de Fortaleza foi parte das comemorações do dia de São Pedro, padroeiro dos pescadores, celebrado dia 29 passado, e do Dia Nacional da Pesca Artesanal. O evento realizado em duas baterias, envolveu 250 pescadores que concorreram distribuídos em 80 embarcações, entre jangadas e paquetes (botes).

Os primeiros concorrentes foram para o mar com suas jangadas por volta das 10 horas. Eram 36 as embarcações do tipo. Às 11 horas foi a vez da largada dos 44 paquetes que competiram. Diretor da Colônia de Pescadores Z-8, Francisco dos Santos Bezerra explicou que em ambas as baterias as embarcações deveriam seguir dois quilômetros e meio descendo para o lado oeste e logo após entrar três quilômetros mar a dentro para completar o percurso, que estava marcado por boias. Todos tinham como guia um bote do Iate Clube, um dos apoiadores do evento.

Enquanto no mar a disputa estava acirrada, quem ficou na praia pode se divertir com o forró do Trio Xodó. Mulheres empreendedoras expuseram produtos que confeccionam à venda. Os três primeiros competidores colocados em cada uma das categorias foram agraciados com troféus. Eles e todos os demais participantes receberem medalhas, e cesta básica. O vencedor da categoria-foi a Jangada Amigo de Elias do Nascimento, de paquetes (botes) Paquete Roberta - Francisco Cristiano Sousa

Fonte: O Povo

sexta-feira, 15 de abril de 2011

CE - Construtor de jangadas


GLOBO MAR - O repórter Ernesto Paglia foi até a casa e oficina de José Martins Soares, que hoje é o único construtor de jangadas da Praia do Morro Branco. Aos 85 anos, ele ainda atua no oficio que pratica há 45 anos.

O senhor José revelou que começou a trabalhar na pesca ainda criança, levado pelo pai, e que largou o mar porque sofria muito embarcado, que já passou fome e cedo dentro do barco. Apesar de ter nove filhos e 14 netos, nenhum parente quis seguir a profissão do construtor de jangadas. “Eles não querem porque é muito pesado o serviço e de muita responsabilidade”, afirma. “É uma profissão que ninguém quer. Dessa rapaziada daqui, eu não conheço um que queira trabalhar com esse setor”.


O Ceará tem 600 jangadas, cerca de 1.400 jangadeiros. Quantos construtores de jangadas?

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Globo Mar - Jangadeiros


Nesta quinta-feira (11) por volta das 23:30, o programa Globo Mar vai mostrar o dia a dia dos jangadeiros do litoral do Ceará. As jangadas antigas, feitas de tronco, não existem mais. Hoje, só tem isopor do lado de dentro e madeira por fora. São pescadores que passam, muitas vezes, mais de três dias navegando para conseguir sustentar suas famílias...

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