Há muito mais entre a terra e o mar, além de praias, ondas e caipirinhas. Desde o Cabo Orange, no Amapá, até Laguna, em Santa Catarina, na zona costeira brasileira, também existem os manguezais, berçários tropicais da vida marinha. De fácil identificação visual, porque uniformes na cor e na baixa variedade de espécies vegetais, entre árvores, arbustos e ervas — os manguezais constituem um riquíssimo ecossistema de transição entre os ambientes terrestres e marinhos, ou, como preferem alguns, entre os domínios das águas doces e salgadas. Sob a influência das marés, as áreas de mangue acumulam e reciclam matéria orgânica, reduzem a velocidade dos rios em seus estuários, protegem o litoral da violência das ondas, e, assim, garantem as condições ideais para a proliferação de numerosas formas de vida: diversos organismos do plâncton (geralmente microscópicos), além de crustáceos, moluscos, vermes, aves, peixes, mamíferos, e mesmo répteis. Há espaço, alimento e abrigo para o desenvolvimento de todos.
O Lagamar é, reconhecidamente, um dos cinco maiores criatórios naturais de espécies marinhas do mundo, mas não só. A Área de Proteção Ambiental (APA) de Cananéia, Iguape e Peruíbe abriga também uma rica biodiversidade terrestre com aproximadamente 90 espécies de mamíferos e 550 espécies de aves. Muitas delas estão na lista de espécies ameaçadas de extinção, caso do papagaio-de-cara-roxa (Amazona vinacea), do guará (Eudocimus ruber) e a saracurado-mangue (Aramides mangle).
Nos mangues, o ritmo da vida não é determinado apenas pelas horas de sol, vento ou chuva. Direta ou indiretamente, o movimento das marés dita o comportamento de bichos e condiciona o tempo do próprio homem. A captura artesanal de ostra, praticada até hoje por dezenas de famílias caiçaras, por exemplo, só é possível durante os horários de maré baixa.
Fora do lodo, nas águas livres do Lagamar — doces, salobras ou salgadas — a pesca é uma atividade antiga e culturalmente arraigada. Começou de modo artesanal, profissionalizou-se e hoje atravessa nova fase.
Um estudo feito pela pesquisadora Milena Ramirez de Souza, mestre em Ecologia de Agrossistemas pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), mostra que a idade média dos pescadores artesanais nas comunidades caiçaras das barras do Ribeira (Iguape), Pedrinhas (Ilha Comprida) e Porto Cubatão (Cananéia) é de 45 anos. A pesca ainda é fonte de renda relevante para a maioria.
No entanto, grande parte da força de trabalho caiçara do Lagamar já migra da pesca e da agricultura para atividades ligadas ao turismo, seja na prestação de serviços em casas de veraneio, no comércio de iscas naturais, ou no aluguel de barcos para passeio e pesca esportiva ou amadora. Mais de 30% dos pescadores artesanais atuam paralelamente como 'piloteiros'.
A pesquisa também mostra, através de dados estatísticos, que a sazonalidade da pesca artesanal, praticada com redes 'malhadeiras' e cercos de espera, está diretamente relacionada à época reprodutiva de algumas espécies. São exemplos a manjuba, no verão, e a tainha, no inverno. Todos os pescadores entrevistados foram unânimes ao afirmar que a qualidade da pesca nos pontos tradicionais piorou nos últimos anos.
O xingó e o corte-de-faca são capturados com o auxílio de tarrafas, e o camarão, com o 'jerivau', uma rede de arrasto adaptada para esse fim. Um peixe curioso e pouco conhecido também usado na pesca de robalos e pescadas é o mossorongo (Gobioides broussonnetii) ou 'peixe-dragão', que vive no fundo lodoso do mangue e se alimenta basicamente de zooplâncton, ficando mais ativo à noite.
Os peixes estuarinos, em especial, ficam ativos quando a maré se movimenta, trazendo alimento dos mangues ou do mar. Fisgar um cobiçado robaloflecha (Centropomus undecimalis), por exemplo, exige observação, habilidade — e, por que não? — uma boa dose de sorte. Caçador oportunista, o robalo se posiciona nas saídas de rios, em bancos de areia, moitas, pedras e raízes de mangue, à espera de suas presas.
O desenvolvimento do turismo de pesca amadora aumentou a demanda por iscas vivas. Segundo Ronaldo Ikebe, dono de marina no distrito de Porto Cubatão, em Cananéia, pelo menos 50 barcos de pescadores amadores vão para a água num fim de semana movimentado, partindo somente desse pólo. “A maioria leva camarão vivo, uma média de 100, por embarcação. A atividade (captura e venda de iscas vivas) sustenta pelo menos dez famílias da região”, diz. Porém tem seus impactos: o arrasto de jerivau mata organismos bentônicos (crustáceos, moluscos, vermes), que se desenvolvem no fundo lodoso dos canais.
Além disso, o homem passou a competir com aves aquáticas e peixes, predadores naturais de xingós, camarões e cortes-defaca. Eis a deixa, portanto, para uma participação maior da isca artificial como agente de equilíbrio ambiental, pois esse é um instrumento comprovadamente eficaz para fisgar a maior parte das espécies visadas pelos pescadores, principalmente o robalo. Diminui-se a pressão de pesca sobre as espécies de pequeno porte, ao mesmo tempo em que se eleva a esportividade, o nível técnico, e a produtividade na pesca de mangue.
Claro, para usar iscas artificiais e ainda ‘dançar’ ao ritmo das marés, é preciso treinar! Mas é um esforço com retorno garantido, tanto na ponta da linha, como dentro d’água.
Claro, para usar iscas artificiais e ainda ‘dançar’ ao ritmo das marés, é preciso treinar! Mas é um esforço com retorno garantido, tanto na ponta da linha, como dentro d’água.
Fonte: EPTV
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